O ex-presidende Lula deixou um legado de expressões. Uma delas, em especial, é minha preferida. Nunca antes neste país havíamos ouvido uma descrição tão fidedigna ao comportamento de alguns Líderes que habitam diferentes ecossistemas: o Líder Jararaca. Como identificá-los?

Falta de ética e desrespeito são marcas registradas. Grandes falastrões, eles têm baixíssima escuta. Seja lá o que você tenha a ponderar, sua frase estará pronta e virá – muito frequentemente – acompanhada por metáforas sarcásticas e de gosto duvidoso. Confiam em suas “míticas intuições” e operam em torno de pessoas, práticas e políticas de baixa qualidade e sem consistência técnica. Meritocracia e cuidados com a gestão são tidos como “frescuras”. Sua fala e sua atitude não encontram lógica, mas isso não tem nenhuma importância para eles. Preferem qualquer vantagem pessoal momentânea ao invés de planos com visão futura de longo prazo. Sobem às alturas como pó, que se levanta com o vento. Não tardam a cair quando a boa brisa passa.

A experiência de ser liderado por gestores com este perfil é inesquecivelmente trágica. Mas tudo melhora quando a Jararaca é pega, às vezes somente pelo rabo, mas depois pela cabeça. Estes indivíduos têm um grande inimigo invisível para si mesmos: uma autoconfiança gigante, estimulada por egos maiúsculos, o que estica a corda onde eles próprios se enforcarão, cedo ou tarde.

Existem poucas coisas tão nocivas para o engajamento com o trabalho do que Líderes que falam uma coisa e fazem outra. Incoerência e engajamento não combinam. Outra característica recorrente do Líder Jararaca.

Toda Liderança precisa ser modelo exemplar do Propósito e dos Valores defendidos. Dizer que algo é importante e não destinar tempo e orçamento para aquilo gera desmotivação. Cobrar comportamentos dos outros, que nós mesmos não praticamos, corrói o comprometimento ao redor. O Jararaca, por outro lado, opera em um campo de realidade distorcida, onde o que chama de “valor” serve – quando muito – como álibi para justificar as mais inadequadas atitudes. Sua compreensão sobre o que é “Propósito” obedece exclusivamente a um jogo de poder pessoal, raso e quase sempre limitado ao curtíssimo prazo.

Momentos de alta complexidade – como o atual – representam a “hora da verdade” dos Valores. O momento em que os Jararacas ficam ainda mais visíveis a olho nu. Quando as coisas se complicam, a Liderança é testada em seu discurso na prática: tudo aquilo declarado como “Valor” será mesmo preservado? Descuidar da Cultura da empresa gera desencanto, principalmente quando isto é patrocinado por uma Liderança Jararaca.

Em processos de Coaching, ouço com frequência: “Rogério, meu Chefe é muito ruim. O cara está me deixando louco! O que faço?”.

Veja, existe um aspecto nisto tudo que não se negocia nunca: respeito! Seja lá quem for seu chefe, o cargo que tiver, não poderá assediar aqueles com quem trabalha, sob qualquer pretexto. Nestes casos, não pense duas vezes: denuncie e tenha coragem para deixar a organização. Pense no impacto nas outras dimensões da sua vida quando você concorda em aceitar desrespeito. Faça a mudança! Não crie justificativas inaceitáveis para conviver com um Líder Jararaca, caso ele ainda não tenha morrido com o próprio veneno.

Nas demais situações, recomendo as seguintes reflexões, que você deve fazer primeiramente sozinho, e depois com seu gestor (se possível), com o RH e com algum outro Líder ou Mentor não Jararaca, dentro e fora da empresa:

  • Como posso ser mais desafiado, ainda que na mesma área e no mesmo cargo?
  • Como posso reconfigurar meu escopo a fim de usar mais minhas principais competências e meus maiores talentos?
  • Como posso realinhar as expectativas com a empresa? Que novo acordo podemos fazer, para nos alinhar sobre o que oferecer e esperar um do outro?
  • Em que outros contextos de trabalho posso me aproximar dos meus valores pessoais?
  • Com que pessoas dentro da empresa percebo maior identidade quanto à linguagem, atitude, valores e comportamentos?

Por último, faça uma reflexão mais íntima, para investigar se não transferiu para seu chefe expectativas inconscientes: tornei-o alvo de alguma idealização indevida? Projetei em meu líder um papel irreal, além da nossa relação profissional? O que pode aprender com tudo isso? Converse com alguém da sua confiança sobre seus pensamentos e sentimentos mais verdadeiros. Valide-os e isto o levará a um patamar mais maduro.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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