Estas primeiras linhas são para quem não viu (mas deveria ver!) a série Breaking Bad, da Netflix. O resto todo deste artigo, para quem assistiu e se tornou fã.

A estória retrata a vida do químico Walter White, um homem pacato, professor de química, honesto mas muito frustrado. Tudo nele colapsa emocionalmente quando é diagnosticado com câncer no pulmão. Quer esconder o problema da família e busca em desespero conseguir o dinheiro para seu tratamento. Walter resolve produzir metanfetamina com seu ex-aluno, Jesse. A trama se desenrola e, quando se dá conta, Walter está comprometido com o tráfico e com o mundo do crime. O nome da série tem tudo a ver com este processo: o termo “breaking bad” é uma gíria do Sul dos Estados Unidos usada para descrever a situação de alguém que se desviou do caminho correto e passou a fazer coisas erradas. Mas também enseja a saga de um homem descobrindo o mal que habita dentro de si.

O ponto que vale chamar a atenção é como Walter se descobre forte quando entra em contato com o seu mal. De fato, a conexão com seu lado mais sombrio lhe traz um poder inebriante, que desconhecia e pelo qual fica irremediavelmente atraído. Há vários momentos da estória em que tem toda a chance de parar com a produção e venda da droga: já com um bom dinheiro escondido, Walter pode voltar para sua família em paz e retomar a vida de singelo professor, mas não o faz. Não porque não consegue, mas porque não deseja. Por quê?

Walter se torna Heinsenberg, o codinome que inventa para a personagem que assume e que encarna sua sombra. Tudo se desenrola maravilhosamente na direção de um grande desastre. Embora sua ambição principal tenha encontrado êxito – Walter deixa uma enorme quantia em dinheiro para sua família – o fim de Walter é trágico.

Há duas lições importantes ao longo de todos os eletrizantes e viciantes episódios desta série (que você precisa assistir): 1) a importância de integrarmos a sombra; 2) como é perigoso o contato com a sombra sem a devida ampliação de consciência.

Incluir a sombra

Imagine o seguinte: há um outro você em você, trancado em um “subsolo”. A primeira vez que me deparei com esta ideia – de pessoas presas no subsolo delas mesmas – foi no maravilhoso livro de Dostoiévski, chamado “Memórias do Subsolo”. Leitura imperdível.

Li esta obra em uma época em que eu mesmo me confrontava com este “inquilino”, um tipo de “sósia” oculta, um “duplo” que reside em nós como uma sombra invasora, clandestina e nada bem vinda.

Quando damos voz a ele, ao “duplo”, o que escutamos não agrada. Sua narrativa é coberta por um tipo de “gosma verbal” que dói, quando ouvida aqui, na superfície. Medo, culpa, vergonha, raiva, ressentimento e tristeza são seus acordes, timbres de um som que seria melhor mesmo trancar de volta no porão. Mas aos poucos descobrimos que, mesmo trancafiado, produz um silêncio enganoso e barulhento. Ao tampar os ouvidos, o ruído aumenta. Ao fazer de conta que não escuto, seus pensamentos e sentimentos ganham poder letal de perturbação, mergulhando-nos em diálogos torturantes e nos deixando menos responsáveis por nossas atitudes.

Só há uma escolha possível: trazê-lo para cima, sentar o “duplo” ao seu lado, perceber sua silhueta incômoda, reconhecer seus traços mal esculpidos, relembrar seu rosto familiar e aceitar sua verdade dilacerante. Mas para que tudo isso? Para algo muito valioso: voltar a ser um todo inteiro e não fragmentado, para oferecer ao outro e a este mundo a melhor versão possível de nós mesmos.

Nossa versão mais destrutiva

O contato com a sombra é necessário e nos empresta força. Ao fazer este processo de modo intencional, transformamos nosso Eu Inferior em um aliado. Mantida no subsolo, a sombra age como um feroz animal que não enxergamos, mas que devora nossos pés em carne viva. Mas quando lançamos um olhar consciente e intencional para ela, esta fera se torna mascote, colocando-se a serviço dos nossos maiores propósitos.

Quando incluída conscientemente, a sombra torna-se corajosa aliada. É como uma força aliada que anda à nossa frente, com o facão na mão, a cortar o mato alto e a enfrentar conosco os maiores perigos da vida, as pessoas e as situações mais desafiadoras que teremos pelo caminho. Diga-se, aliás, ser improvável que façamos a integração da sombra sozinhos. Para esta jornada, precisaremos de ajuda.

Para quem assistiu a Breaking Bad, a história de Walter é extraordinária e não transcorre a partir de um relacionamento consciente com seu Heinsenberg. No final, sua sombra não incluída com autoconsciência produziu um resultado bastante comum não apenas em séries incríveis como esta, mas igualmente na realidade: autodestruição.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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