Certa vez, durante um projeto de Cultura Organizacional em um cliente, testemunhei uma situação bizarra e recorrente em outras empresas. Um grupo de Gerentes, durante um workshop comigo, confidenciou:

– Rogério, este problema que enfrentamos na organização é sério demais. Precisamos do apoio do nosso CEO, mas ele ainda não foi informado sobre nada disso.

– Mas por que ainda não falaram com ele? É preciso agir com urgência! – disse-lhes, em tom de preocupação.

– Ele não vai gostar… sua reação será péssima! Vamos evitar ao máximo este papo com ele. Quem sabe até lá damos um jeito nisto…

Procrastinaram a conversa na mesma medida em que o problema triplicou de tamanho. Para o CEO, tornou-se impossível não enxergar a encrenca: era como não perceber o rinoceronte no meio da sala. A situação ficou tão complexa que as soluções implementadas tiveram que ser dolorosas e adotadas com urgência, pouco planejamento, muito improviso e com impactos negativos para indivíduos e organização.

Por que isto acontece? Uma possível resposta: Miopia Corporativa.

Negação da Realidade

O professor de Harvard, Richard Tedlow, em seu livro Miopia Corporativa: como a negação de fatos evidentes impede a tomada das melhores decisões, destaca a ideia de “pensamento de grupo”, ou seja, um nível de coesão negativa em torno de certas crenças e ortodoxias que diminuem a capacidade de enfrentar a realidade e questionar verdades cristalizadas.

Este tipo de comportamento gera um sentimento nocivo e comum em grandes empresas com significativa participação em seus mercados: a sensação de invulnerabilidade. “Somos grandes demais para fracassar ou quebrar”, pensam elas. Trata-se, literalmente, do mesmo argumento usado pelos líderes do Lehman Brothers, às vésperas do seu fiasco: “we are too big to fail”. O resto é história. Outro exemplo: a postura de soberba da Sears, que do alto do maior edifício em Chicago não foi capaz de perceber o surgimento de um novo player, chamado WalMart.

Organizações míopes adotam uma postura de rejeitar ou racionalizar dados e fatos que ameaçam suas convicções. Gastam horas das suas equipes – ou até mesmo de consultorias externas – para provar a tese da qual não abrem mão, aquilo que acreditam ser a expressão da “realidade”. Qualquer possível questionamento às suas premissas será tratado como informação insuficiente, dado incompleto e imperfeito. Mais estudos, pesquisas e especialistas serão necessários até que se ateste aquilo que se deseja “comprovar”. Dinheiro e tempo preciosos desperdiçados.

Atitude de rebanho

Isto retroalimenta outro nocivo comportamento: o de repudiar visões dissonantes que ameaçam estas certezas. O mensageiro destas mensagens será morto. Qualquer um que apresente um possível contraponto será tratado como desengajado, desalinhado e sem comprometimento. Espera-se uma fidelidade canina e cega.

Isto inibirá cada vez mais aqueles indivíduos que não têm vocação para avestruz. Outros, ao contrário, estarão prontos para aderir como rebanho silencioso à esta perigosa jornada de negação da realidade.

Cada vez mais distante do que está acontecendo de verdade, o CEO é mantido artificialmente em uma ficção. Nada que seja capaz de livrá-lo da ilusão em que vive surgirá da iniciativa dos que estão ao seu redor. O declínio será inevitável e rápido.

As duras consequências

A empresa testemunhará seus negócios mergulharem nas águas sangrentas do oceano vermelho, onde navegam empresas lentas, caras, paralisadas em seus processos decisórios e sem qualquer inovação em produtos, serviços, gestão e modelos de negócio. Neste mares, a lógica é de falta de diferenciação e briga por custos e preços.

Cortar custos passa a ser a palavra de ordem. Os investimentos em inovação e pessoas despencam. Com isso, será difícil manter engajados os melhores talentos. A empresa perde exatamente aqueles mais capazes de tirá-la da estagnação e do fracasso. O que estava ruim, ficará pior.

Como evitar a Miopia Corporativa?

Como evitar este destino? Seguem aqui meus 5 conselhos:

1) Saia do bolha, CEO!: será importante abrir mão do gabinete, reduzir ao máximo a distância com os demais níveis e estar próximo do calor e da energia da operação e do negócio.

2) Estimule a cultura da franqueza: o CEO precisa dar o recado claro de que está aberto e disponível para encarar a realidade nua e crua. Precisa convidar as pessoas a falarem dos problemas, cara a cara, olho no olho. Não importa quantas reuniões sejam necessárias para quebrar a paralisia e descongelar as pessoas, fortalecendo a prática de conversas difíceis e corajosas.

3) Troque o medo de falar pelo aprendizado com a falha: será preciso eliminar o medo castrador das pessoas em admitirem erros e insucessos. O CEO dará o tom: “vamos errar logo, o mais rápido possível, para começar a acertar o quanto antes”.

4) Substitua o julgamento pelo empoderamento: ao trocar o foco no problema pela prioridade às soluções, o CEO abrirá espaço para as pessoas se empoderarem da crença de que são capazes de oferecer respostas positivas para os desafios.

5) Inicie com urgência um programa de geração de ideias e inovação: não há nada mais forte para oxigenar a empresa, reengajar os melhores talentos, elevar o moral, melhorar o clima e reestabelecer a autoconfiança do que iniciativas que estimulem as pessoas a gerar ideias e inovar. O CEO deve ser seu maior patrocinador.

Estas atitudes, lideradas pelo CEO e seus Executivos diretos, darão o tom de uma reviravolta que diminuirá o perigoso grau de miopia da organização, que enfraquece o presente e destrói seu futuro.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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