Leia Susan Cain, em O Poder dos Quietos. Você descobrirá uma excelente argumentação a favor da capacidade de Liderança dos tímidos e introvertidos, apesar de vivermos em um mundo que estimula a extroversão.

Jim Collins, em Good to Great, fala de algo parecido quando descreve o Líder nível 5: humilde e com força de vontade. Um indivíduo que na crise olha no espelho, e no sucesso olha pela janela.

Líderes introvertidos dialogam menos com a fala e mais com o silêncio e a escuta. São ótimos ouvintes. São sensatos, ponderam bem o cenário todo e não saem pelos corredores batendo no peito, dizendo “deixem comigo, eu resolvo”. São pessoas reflexivas, capazes de enxergar o todo e de ouvir com atenção seus interlocutores. Ao final, ao invés de tomarem a ação para si, empoderam sua equipe a agir, a seguirem em frente com as soluções que vislumbraram juntos. Por este motivo, Líderes com este perfil são bons formadores de pessoas. Escutar e estimular a equipe a agir são atitudes que aceleram o desenvolvimento daqueles ao seu redor.

Um olhar descuidado para nossa realidade pode sinalizar algo diferente: os introvertidos não têm lugar em um mundo que valoriza a extroversão ao máximo. Para liderar, é preciso ser um craque ao microfone com uma retórica capaz de arrebatar multidões, dominar todos os diferentes canais de comunicação, além de ser ativo e engajador nas redes sociais. Ufa: é muita coisa!

Comunicar-se será sempre importante, é claro. Mas os introvertidos podem fazê-lo sem se desviar da sua essência: falarão ao seu próprio estilo. É possível aprender a usar diferentes canais, algo que se torna uma necessidade real quando o indivíduo deixa de ser Líder de uma equipe para se tornar Líder de uma operação, de um negócio ou de uma organização inteira.

Convivo com Líderes tímidos e é muito prazeroso vê-los em ação. Quando sobem ao palco, parece que ficam 4 vezes mais tímidos. Aquilo tudo os incomodam, visivelmente. Mas aí percebemos 3 coisas cativantes:

  1. não fingem: eles não tentam ser quem não são, ficam vulneráveis, bochechas vermelhas de vergonha, pescoço roxo de timidez. O efeito de toda esta autenticidade e humanidade é positivo: ao perceber seu imenso desconforto de cumprir seu dever fazendo algo que lhe custa muito, quem o ouve chega a sentir com ele o que naquele instante ele próprio sente, ou seja, empatia e compaixão tornam-se efeitos colaterais bem vindos.
  2. se preparam mais: em razão de não se sentirem confortáveis com o desafio de falar em público, preparam-se mais do que aqueles autoconfiantes com sua oratória. Escrevem, treinam muito e pedem feedback. O esforço de oferecer o seu melhor é percebido e, novamente, atrai e inspira os que o escutam.
  3. são breves e objetivos: pense no oposto do Fidel Castro. Estes caras nunca buscarão recorde de horas ao microfone. Sua timidez os obrigará a uma brevidade que agradará aos ouvidos (e aos traseiros, se os ouvintes estiverem sentados). De novo, a audiência receberá a mensagem certeira e breve de braços abertos e agradecida pela generosa economia de verbos, dados e fatos.

Estive, certa vez, em um evento de uma grande empresa do varejo. Seu presidente – claramente um cara tímido e introvertido – era obrigado a subir ao palco e puxar a platéia, como um verdadeiro animador de auditório. Era obrigado a fazê-lo, pois cumpria ali com um ritual simbólico da Cultura daquela organização. Mas era visível sua atitude de parecer confortável, de simular que estava curtindo estar ali, gritando ao microfone e fazendo movimentos desconcertados e artificiais com o corpo. Depois de poucos minutos, desceu do palco todo rouco. Para mim, não era propriamente um problema com a voz, mas com o quanto havia agredido a si mesmo encenando alguém que não era, e que detestava ser.

No final das contas, é muito bom estar com alguém que age como é, e não como acha que os outros acreditam que ele deva ser.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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