Diante da dura necessidade de cortar pessoas, com que cuidado você, que tem cargo de Liderança, conduz as demissões?

Estou mais do que convencido de que nossa legitimidade enquanto Líderes está diretamente relacionada à nossa habilidade e consciência em desligar as pessoas. Até hoje me recordo dos momentos em que eu mesmo não soube lidar adequadamente com este tão difícil desafio. É muito ruim – além de complexo do ponto de vista humano e técnico – o processo de demissão.

Todos já testemunhamos algum contexto marcante sobre demissões. Mas esta que compartilho agora foi singular. Veja só.

Com a boca cheia de batata frita – e com a cabeça e o coração vazios!

Há pouco tempo, fui almoçar na praça de alimentação de um shopping e sentei ao lado de uma mesa onde havia dois executivos conversando. Foi inevitável ouvir a conversa. Um deles dizia:

– Esta semana é decisiva. Até sexta, vou demitir o Rodolfo. É um cara legal, até gosto dele, mas teve muito desgaste político com o Conselho e não dá mais para segurar.

O segundo perguntou:

– Que motivo vai alegar para demiti-lo?

A resposta veio a partir de uma boca cheia de batata frita:

– Bem, vou dizer que o problema é desempenho.

– Mas o Rodolfo é a pessoa mais bem avaliada do time…

Seguiu-se um momento de silêncio constrangedor. Após alguns segundos, o primeiro voltou a falar:

– Bom… até sexta penso no motivo que vou alegar… você vai querer sobremesa?

E assim foi traçado o destino de Rodolfo. Assustador, não é?

Conheço outras histórias aterrorizantes sobre como empresas conduzem processos de demissão: pessoas demitidas pelo telefone ou por email, algumas desligadas por figuras que nunca viram antes na vida, outras que se recuperavam de graves doenças e mesmo aquelas que descobriram seus crachás bloqueados quando retornavam para o escritório depois do almoço ou das férias. A forma pode ser pior do que a demissão em si, capaz mesmo de devastar alguém.

Não adianta investir em ações de engajamento, comunicação e clima organizacional se na hora de demitir a empresa desconsidera o impacto negativo que causa na pessoa que sai e naqueles que ficam.

Muito cuidado ainda é pouco. Um desligamento desastroso revela a distância entre o discurso e a prática sobre gestão de pessoas. Ao contrário do que deseja, a empresa gera uma percepção de que não se importa com as pessoas. E aí, como cobrar alto grau de comprometimento daqueles que permanecem? A resposta virá nos resultados, na rotatividade e na falta de engajamento.

Quais cuidados ao demitir?

1) Demitir não é fácil para ninguém, eu sei. Mas se é um mal necessário, procure conduzir o processo de desligamento equilibrando razão e sensibilidade.

2) Seja transparente, fale a verdade sobre os motivos da demissão e se prepare para este momento. Planeje a hora, o local e a circunstância geral em todos os detalhes pensando menos em você e mais na pessoa que será impactada pela demissão. Pense em tudo que possa contribuir para gerar um contexto menos opressor e constrangedor a ela.

3) Mantenha-se coerente com os valores da empresa e com tudo aquilo que sempre disse valorizar e defender.

4) Em condições normais, uma demissão por desempenho não deveria ser surpresa, sempre que os gestores cuidam dos processos de feedback de modo consistente. Mas cuidado: o momento da demissão não é mais a hora para dar feedbacks que nunca foram dados.

5) Poupe a pessoa de situações embaraçosas. A menos que você tenha motivos muito relevantes para isso (como em demissões por justa causa, por exemplo), evite situações que pareçam “escoltar” o indivíduo para fora da empresa.

6) E talvez o mais importante: coloque-se no lugar do outro, dando sentido real à palavra empatia.

A maneira como você demite marcará fortemente a gestão do seu time, seu clima e engajamento. É a hora da verdade dos valores e comportamentos que você sempre pregou para os outros. É a hora de manter a máxima coerência, com a maior compaixão possível.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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