Há anos escuto dos meus amigos e clientes de Coaching:

– Rogério, não sou uma pessoa empreendedora. Sou muito ponderado, planejado e precavido. Não dou passos maiores do que as pernas. Não sou arrojado e ousado para empreender…

Para surpresa deles, respondo:

– Excelente! Bem vindo ao mundo daqueles que têm maior chance de empreender com sucesso!

Empreender aqui vai no sentido amplo, da atitude empreendedora, tanto em negócios próprios, quanto em um emprego. A crença predominante, todavia, é que ser empreendedor enseja um nível tal de ousadia heróica exclusiva apenas na genética de alguns indivíduos. Será mesmo?

O mito vigente é de que empreender com sucesso exige assumir riscos extremos, dádiva apenas daqueles grandes criadores que trazem o DNA do sucesso em seu berço, totalmente imunes ao risco. Amam a incerteza e ignoram a opinião dos demais à sua volta. São rebeldes, revolucionários, questionadores, independentes, não temem o ridículo e acertam sempre. Como disse, isso não passa de mito.

Repito há tempos: pessoas com atitude empreendedora odeiam riscos, mas amam desafios. Assumem riscos calculados, depois de avaliarem que as chances de sucesso são maiores do que as de fracasso.

Se você é avesso a riscos e tem receio sobre a viabilidade de suas ideias, é provável que elas sejam construídas de forma bem sucedida.

O excelente professor e escritor Adam Grant, em seu livro Originais, afirma: “As pessoas bem-sucedidas fazem a mesma coisa, equilibrando os riscos em um portfólio. Quando acolhemos o risco em determinada área da vida, reduzimos o nível geral de risco sendo cautelosos em outro setor”. Como disse o fundador da Polaroid, Edwin Land, “ninguém pode ser original em determinado campo se não possuir a estabilidade emocional e social que advém de atitudes regulares em todas as outras áreas que não aquela em que está sendo original.”

O segredo reside, portanto, em assumir risco balanceado: sentir-se seguro em um setor da vida nos dá liberdade para sermos originais em outro. Por essa razão, muitos conduzirão testes e protótipos de seus novos projetos em paralelo a seus empregos e atividades que lhes tragam alguma estabilidade. Até o momento em que a experiência de erros e acertos lhes dará o sinal para “pular”. Será um risco, mas com algum cálculo razoável. Haverá incerteza, mas à essa altura estará mitigada.

A ideia de um grande herói que salta de forma destemida no vazio termina de forma previsível: com morte súbita. Por vezes, um grande acerto vem depois de uma sequência de erros exatamente porque se aprende a gostar mais de desafios do que de riscos. A experimentação e a aprendizagem reduzem riscos.

Corrobora nesse sentido esta frase: “Os melhores empreendedores não maximizam o risco”, observa Linda Rottenberg, cofundadora e CEO da Endeavor. “Eles tratam de deixar o risco menos arriscado”.

Pessoas bem sucedidas e com perfil empreendedor assumem riscos extremos de um lado e os contrabalançam com cautela do outro. Não há evidências de que os empreendedores apreciam o risco mais do que qualquer um de nós. “Essa é uma das raras conclusões sobre as quais economistas, sociólogos e psicólogos estão de acordo”, afirma Adam Grant.

Grant cita um curioso estudo cujo resultado seria idêntico no Brasil, na minha opinião. Já o testei empiricamente. Neste estudo conduzido com 800 americanos, empreendedores e empregados de diferentes empresas foram solicitados a indicar qual destes três negócios optariam por lançar:

a) Um que dê 5 milhões de dólares de lucro, com 20% de chance de sucesso

b) Um que dê 2 milhões de dólares de lucro, com 50% de chance de sucesso

c) Um que dê 1,25 milhão de dólares de lucro, com 80% de chance de sucesso

A grande maioria escolheu a terceira opção. “Descobrimos que os empreendedores são bem mais avessos ao risco do que a população em geral”, concluíram os autores. É extremamente humano desejar um risco menor, inclusive entre aqueles cujos acertos são significativos.

O que desejo aqui ponderar a você é a necessidade que todos temos de nos livrar das crenças limitantes de que “não podemos, não conseguimos e não merecemos”. Podemos sim empreender, a despeito de um estilo mais planejador e menos aloprado.

Os empreendedores mais bem sucedidos não são os malucos que dão o salto antes de olhar para baixo. Ao contrário, aproximam-se com cautela, “calculam a velocidade da queda, conferem três vezes os paraquedas e estendem uma rede de segurança lá embaixo por via das dúvidas”, completa Grant. Como escreveu Malcolm Gladwell na revista The New Yorker, “muitos empreendedores correm riscos à beça – mas esses são, em geral, os que fracassam e não os que têm histórias de sucesso”.

Por último, reforço aquela que para mim é a melhor recomendação: autoconhecimento. Clareza para seus valores, crenças, competências, talentos e propósitos servirá como bússola a guiá-lo em iniciativas que farão todo sentido para você.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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