6 de agosto. Completei meus primeiros 49 anos. (Primeiros??!!).

Sem que fosse uma intenção consciente, lembrei-me do meu pai, Oswaldo Chér, e das 5 principais lições que aprendi com ele.

Em meus caminhos de autoconhecimento, a figura paterna foi sempre um desafio. E o significado de integrar meu pai em minha história esteve sempre ligado ao quanto me aproximei do meu propósito e à forma como lidei com figuras de autoridade formal.

Integrar a figura paterna mostrou-se essencial para eu abraçar meu chamado nesta vida. Na medida em que ficava em paz com meu pai, mais perto me sentia do meu propósito, da minha vocação e do porquê faço o que faço. Ao mesmo tempo, passei a ter uma relação mais saudável com pessoas em cargos de autoridade, sem idealismos, espelhamentos e projeções. Ou seja, sem miragens!

Estes pontos já seriam suficientes como legado paterno. Mas quero compartilhar com você um pouco mais a respeito.

Meu pai era uma pessoa simples, sem formação acadêmica, sem amigos (a família e o trabalho eram tudo o que possuía), bem humorado e, acima de tudo, um avô amoroso para os netos. Não era dado a “papos cabeças”, algo que ficava mais na seara da minha mãe. Mas é incrível o valor que hoje atribuo às 5 lições que aprendi com ele:

Lição #1: Há várias formas de expressar Amor

Minha mãe se chama Maria Luiza e engravidou de mim em sua lua de mel, em Balneário de Camboriú (SC). Sou primeiro filho deste casal. Testemunhei a minha vida toda meu pai chamá-la de “Maria Luiza”. Não rolava nunca um “amorzinho”, meu “bem”, “Lu” ou “tchutchuca”. Era Maria Luiza e ponto!

Em minha santa ignorância, pensava: “meu pai não é carinhoso, tampouco amoroso”. Mas no mesmo instante em que era incapaz de usar apelidos afetuosos no diminutivo, estava sempre pronto para servir à minha mãe e à família. Sabia falar amor por meio daquilo que Gary Chapman chama de “Atos de Serviço”, ou “Formas de Servir”.

Aprendi, portanto, que existem diferentes linguagens para amar, e que todas têm seu valor quando expressas com a nossa verdade. Exatamente como meu pai sabia fazer ao seu modo. Fiquei mais atento para a maneira como eu reconheço amor e para a linguagem dos demais à minha volta.

Lição #2: Não fique de joelhos, mas sim na sua altura verdadeira

Quando era pequeno, perto dos 10 anos, ouvi com alguma recorrência esta frase: “não fique de joelhos”. Por alguma razão, algo em meu comportamento naquela época gerava em meu pai preocupação que o fazia repetir esta ideia. Depois, nunca mais a repetiu.

Durante toda minha vida, não consegui esquecê-la. Mantive-a o tempo todo pulsando em meus ouvidos, como incômoda pergunta: “você está de joelhos? Esta é sua altura verdadeira?”.

Com os anos, esta inquietação se desdobrou em outras reflexões, sempre úteis para mim: “você está se acostumando com algo que seja pouco, imperfeito e insuficiente?”. Olhando para trás, vejo que as mudanças mais corajosas que fiz até hoje em minha vida pessoal e profissional estavam conectadas, de uma forma ou de outra, com esta indagação, do quanto sou capaz de aceitar passivamente o que é raso, escasso e insatisfatório.

Lição #3: Saia detrás das árvores

Curiosamente, na mesma época, por volta dos meus 10 anos, fiz uma viagem pela escola ao Paiol Grande, um rancho em São Paulo para onde muitos de nós íamos durante férias e feriados. Guardo uma memória emocional horrorosa daquela viagem, que só consigo resumir em uma palavra: solidão.

Sempre tive razoável facilidade em me sociabilizar, mas naquela viagem, por alguma razão, passei a maior parte do tempo com nó na garganta, sentindo-me só. Havia apenas uma companhia: a de uma máquina fotográfica Yashica que eu havia ganhado, e com a qual investi parte considerável daqueles dias fotografando os bosques e a paisagem por lá.

No caminho de volta, lembro-me de estar no ônibus com a sensação de uma longa viagem, uma desconfortável sensação de estar longe de casa, do que era meu, do que me era familiar. Quando cheguei, minha primeira iniciativa foi mostrar as fotos que havia tirado, todo feliz com o resultado. Foi quando meu pai olhou em silêncio as fotos, sem qualquer expressão no rosto e disse: “Você precisa sair detrás das árvores!”.

Foi um soco no estômago. O sentimento foi de injustiça. Senti-me desprestigiado. Mas novamente a pergunta colou em minha mente: para o resto da vida, passou a me perseguir. Com o tempo, seus significados ganharam versões complementares, do tipo: “O que você está protagonizando? Qual sua autoria? Como construirá um legado? No que você realmente faz diferença?”.

O desconforto com estas perguntas foi responsável pelos momentos em que ampliei a ousadia e o comprometimento com temas que fazem muito sentido para mim. Fundar a primeira Empresa Júnior do Brasil e lançar meu primeiro livro aos 22 anos foram, sem dúvida, resultados destas provocações.

Lição #4: Em situações difíceis, você fala muito!

Meu pai me disse isso uma única vez, em meio a uma situação de conflito que eu vivia. “Você fala muito!”. Trata-se de uma verdade chata para mim. E, diferentemente das outras 3 frases paternas, essa eu ouvi depois de velho, quando meu pai já estava doente, pouco tempo antes de morrer.

Em situações conflituosas, disparo uma verborragia destrutiva e que mais afasta do que aproxima o interlocutor das minhas intenções. Estou ainda em pleno curso de aprender a ouvir mais do que falar, de lembrar que às vezes o silêncio não é ausência de diálogo, mas a melhor coisa a ser “dita”.

Lição #5: Estou à sua disposição

Esta foi a última lição. Talvez a mais impactante, aquela que ainda causará reflexos em mim, pelos próximos anos.

Meu pai teve um câncer no estômago, extremamente agressivo. Tirou o estômago, emagreceu inúmeros quilos e enfrentou longas e dolorosas sessões de químio e radioterapia.

Quando estava com expectativa de cura, descobriu que a doença já atacava seu fígado e outras partes do corpo. À certa altura, os médicos recomendaram suspensão do tratamento. Não havia mais o que fazer, mas apenas paliativos. Embora não tenhamos dito isto claramente, ele sabia. Mas tenho na memória ele sentado em frente à médica oncologista, extremamente magro e debilitado, dizendo: “estou à sua disposição”.

Esta ainda é uma lição recente, embora clara em sua contribuição a mim: não podemos prever o que acontecerá conosco, mas podemos escolher como agir em cada situação. A vida é uma experiência completamente desconhecida, em boa medida fora do nosso controle. Mas tem algo que sempre estará em nossas mãos: a atitude com a qual passamos pelas coisas que não escolhemos.

Por vezes vivemos coisas que consideramos singelas ou com pouco significado. Parecem cenas coadjuvantes em nossa história, acessórias e sem importância. O tempo passa e então percebemos a relevância escondida em episódios ordinários.

A vida faz sempre sentido retroativo: olhamos para trás e temos uma estranha e saudável sensação de que tudo o que aconteceu, de bom e de ruim, era para nos preparar para este momento presente. Por isso, nossa existência é – e será sempre – uma aventura positivamente desconhecida.

E para você? Qual legado da sua figura paterna? Sente que a integrou em você, plenamente?

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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