Tive a honra de fundar a primeira Empresa Júnior do Brasil, junto com outros amigos pioneiros, que comigo estudavam na FGV-SP, em 1988.

Inspirados pelo que havia surgido na França em 1967, nossa ideia era complementar com experiência prática nossa formação teórica, levando consultoria para pequenas empresas brasileiras. O resultado? Hoje, o Movimento de Empresa Júnior (MEJ) representa a maior organização de jovens empreendedores do mundo.

Esta iniciativa tem transformado o empreendedorismo e a educação universitária no Brasil, do mesmo modo como transformou minha vida.

Participei nestes últimos dias no Encontro Nacional de Empresas Juniores (ENEJ), em Porto Seguro, na Bahia, e saí encantado com o que vi por lá.

Um legado de alto impacto

Há 29 anos, eu era aluno de Administração na Fundação Getúlio Vargas, a mais prestigiada escola de negócios da América Latina. Mas apesar de todo este prestígio, eu e meus amigos não tínhamos acesso a boas oportunidades de estágio, em parte pela crise econômica do Brasil, em parte pelas regras limitantes da nossa faculdade.

Foi quando, em junho de 1988, conhecemos o conceito de Empresa Júnior, quando eu e um colega, Murilo Nahas, fizemos uma visita à Câmara de Comércio e Indústria Brasil – França. Fui à reunião por insistência do Murilo, que teimava em me levar para ouvir a ideia. Fui apenas para ele não me aborrecer mais. Quando conheci o projeto, fiquei paralisado: parei de respirar, senti a força daquela iniciativa e da sua alta relevância para nossa faculdade e para o Brasil.

Com um grupo inicial de 15 colegas, depois expandido para 70, aproximadamente, fundamos ainda em 1988 a Empresa Júnior da FGV. Um dos maiores obstáculos foi a própria direção da Escola: nos ameaçaram de processo jurídico por “uso indevido do nome da escola” e não nos queriam lá dentro. Esta postura só nos impulsionou a seguir adiante. Era preciso começar a trabalhar o quanto antes. Então veio o primeiro projeto: uma consultoria focada em organização e métodos para a ONG de Sustentabilidade mais prestigiada do Brasil à época: a Fundação SOS Mata Atlântica. O projeto foi patrocinado financeiramente pela Federação do Comércio de São Paulo e durou 4 meses. Foi um sucesso!

Estávamos prontos para ir à imprensa. Apenas um jornal se interessou por nossa história: a Folha de S.Paulo, felizmente o de maior circulação no país. Ganhamos rapidamente as manchetes em jornais, revistas e televisão. Alunos do país inteiro passaram a nos procurar: queriam apoio para levar adiante a mesma experiência. E o mais importante: com nosso prestígio em todo o país, a direção da nossa faculdade nos deu trégua e não mais nos atrapalhou.

Hoje, o movimento no Brasil é muito expressivo. Segundo a Brasil Junior (nossa confederação brasileira), chegaremos ao final deste ano com 650 empresas juniores, em mais de 140 universidades em 22 estados do Brasil. Estimam-se 16 mil estudantes envolvidos diretamente no movimento, mais de 70 mil ex-empresários juniores e cerca de 10 mil projetos realizados apenas em 2017. Números que expressam a alta relevância deste movimento em nosso país.

Hoje, não tenho dúvida de que estes alunos representam a melhor noticia e a mais encantadora esperança para o meu País. A alma deste movimento desperta em nós não apenas um sonho, mas uma urgente necessidade: de termos o Brasil livre da corrupção e incompetência, com homens e mulheres capazes de Liderar nossas empresas e o País com nobres propósitos e valores. Tenho certeza de que estas pessoas virão das Empresas Juniores!

Refundar o empreendedorismo brasileiro

Tenho dito que precisamos refundar o empreendedorismo brasileiro. Nossa aituação é constrangedora: grandes ícones do empreendedorismo brasileiro estão com reputações em chamas. Nomes que até hoje eram reverenciados como heróis em congressos e seminários no Brasil e no exterior, agora estão presos ou negociando liberdades condicionadas a delações-bomba, tornozeleiras ou fianças.

Precisamos com urgência refundar o empreendedorismo no Brasil. Professores, estudantes, Empresas Juniores e entidades com relevância nesta causa, como Endeavor e Sebrae, precisam se envolver em uma reconstrução de premissas fundamentais que precisam inspirar o verbo empreender no Brasil com outros significados.

Novos mitos, símbolos e exemplos devem servir para reorientar a fala e o comportamento daqueles que já empreendem e dos demais que pretendem fazê-lo no futuro.

Nossas referências atuais estão comprometidas. O Brasil não merece pouco, nem sequer símbolos repletos de glamour, mas que não passam de elegantes farsas. Empreender depende de conhecimentos, habilidades e atitudes que não passam pela desenvoltura olímpica e sacana de maus empresários bem vestidos, porém movidos pelos piores valores que compartilham com políticos de todos os gêneros, espécies e raças.

Precisamos levantar a bandeira do que chamo há anos de Empreendedorismo de Significado, norteado pelos seguintes parâmetros:

  1. Autoconsciência: parte imensa da crise que vivemos tem a ver com consciência. Ou com a falta dela. Precisamos nortear urgentemente a educação brasileira em todos os níveis por autoconhecimento, do ensino fundamental ao superior. De igual modo, autoconhecimento deve ser o principal tema para desenvolvimento das pessoas dentro das empresas, também em todos os níveis.
  2. Propósito: nossas organizações precisam se ancorar em causas nobres e em objetivos aspiracionais quanto ao impacto que desejam conscientemente gerar nas pessoas, na sociedade e no mundo. Estudantes e profissionais em todas as áreas precisam se inquietar pela busca de Sentido e Propósito em suas vidas pessoais. Precisamos deixar para trás o mundo do emprego e mergulhar os brasileiros na busca por suas vocações.
  3. Valores: consciência, ética, excelência e inovação devem ser valores centrais, em todos os setores e tipos de empresas. Precisam se tornar marcas registradas das empresas brasileiras e reorientar comportamentos.
  4. Visão de Futuro: os Líderes de nossas organizações precisam Re-inspirar as pessoas e o país com uma visão de grande transformação, de novas premissas e de um futuro idealizado por sonhos grandes.
  5. Liderança: cada indivíduo em cargo de liderança, quer seja coordenador, supervisor, gerente, diretor ou presidente, não importa, cada um deles precisa encarar o peso da responsabilidade de liderar, de como impactam as pessoas todos os dias. Os Líderes precisam agir como modelo inspirador do Propósito e dos Valores deste Empreendedorismo de Significado.

Vamos encarar a realidade: a crise em que nos metemos é complexa demais e hoje não temos razões para acreditar que a política nos trará uma saída inteligente, rápida e eficaz. Qualquer solução para o que vivemos passará pela transformação das nossas empresas, das relações que as pessoas têm todos os dias com seus trabalhos e Líderes.

A chance que temos de viver algo verdadeiramente novo depende bem menos de novas eleições e das iniciativas de lideranças políticas e partidárias, mas muito mais do que construímos de valor em nossas relações diárias. E esta experiência valorosa vem de sobra dos maravilhosos jovens que hoje lideram o MEJ brasileiro!

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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