A dificuldade em se relacionar

Como consultor de carreira, é mais comum do que você imagina encontrar executivos cujas maiores dificuldades passavam pela baixa – ou nenhuma – consciência sobre este tema. Não lhes falta know-how técnico para executar seus trabalhos. Seus problemas, invariavelmente, dizem respeito a turbulências nos relacionamentos com chefes, pares, subordinados, clientes, fornecedores ou parentes.

O “nó” reside, por vezes, na qualidade das conversas e relações familiares (inclusive as conjugais) e profissionais. São questões emocionais e comportamentais, para as quais o conhecimento sobre como operam as energias do masculino e do feminino – em si e nos demais – faz toda diferença.

Não nos referimos ao gênero homem ou mulher, tampouco a preferências sexuais. O foco é como ambas energias se articulam dentro de nós e o quanto de consciência somos capazes de colocar nisto. Independente do seu gênero e dos detalhes sobre sua sexualidade, todos temos as duas energias reunidas e quase sempre estamos desatentos sobre seus efeitos em nossos relacionamentos, dentro e fora do trabalho.

O que é polaridade?

Aspecto importante aqui é o significado de polaridade. Toda polaridade enseja um par de polos opostos, mas sempre interdependentes. Não existe um polo certo e outro errado, um recomendável e outro a ser evitado. São partes de um mesmo todo e um não existe sem o outro. Entre ambos não cabe a partícula “ou”, mas apenas “e”. Assim, temos lado direito e esquerdo do cérebro, tomamos decisões de vida pessoal e profissional, sentimos frio e calor, a empresa centraliza e descentraliza informações, experimentamos alegria e tristeza, somos masculinos e femininos, e assim por diante, numa existência recheada de polaridades.

Mas como compreender a energia masculina e feminina além do gênero homem e mulher? Quando reconhecer os efeitos de uma e outra? Há remotos tempos esta conversa mobiliza crenças e teses, da filosofia à psicologia, do oriente ao ocidente. Vamos resumir e simplificá-las.

Masculino e Feminino enquanto energias: características

O masculino sempre esteve ligado ao senso de direção e propósito, à atitude de escolher e decidir. O feminino, por sua vez, esteve historicamente ligado à vida, ao viver, ao despertar para a luz do dia e à experiência de estar vivo. Não sem motivos a palavra mãe vem de matter, ou matéria. A associação implícita seria entre o feminino e a matéria – no caso, o corpo que ganhamos em vida e que encarna nossa energia vital. Força e segurança seriam temas mais do masculino, enquanto cuidar e nutrir seriam femininos. O feminino experimenta prazer quando preenchido e nutrido, enquanto o masculino quer liberar sua energia, libertar seu poder e preencher o mundo com seu propósito. Estabilidade e continuidade são masculinos, enquanto criatividade e mudança carregam muito do feminino. O masculino age ancorado na confiança em si, é ativador de seus recursos e os emprega deliberadamente para conquistar seus objetivos, enquanto que o feminino espera seu destino, é receptivo aos resultados que virão e confia no fluxo da vida. O masculino é concreto, racional, analítico e objetivo, enquanto o feminino é abstrato, intuitivo, difuso e subjetivo. O masculino arrebata, toma para si o que deseja e penetra o mundo com a força da sua essência e do seu amor. O feminino se entrega, deixa estar, recebe e não quer oferecer resistência, também por amor. O masculino quer se comprometer com metas e resultados, enquanto o feminino quer viver significado, sentido e experimentar seus valores mais profundos. Para o masculino, o propósito de qualquer conversa é uma decisão, uma clara resolução. Para o feminino, a conversa é o propósito. O masculino evolui quando desafiado a avançar, errar, corrigir e aprender. O feminino evolui pelo elogio, pelo enaltecimento e louvor.

Note como homens e mulheres – hetero ou homossexuais – apresentam tais características. Você certamente se viu em várias delas. Todos temos identificação com estes comportamentos, porque em nossa alma todos somos energeticamente masculinos e femininos ao mesmo tempo, ainda que com ênfases e calibragens diferentes.

Entretanto, repare como todos temos desafios em nos relacionar dentro e fora da família. Nossos vínculos com nosso par amoroso, pais, filhos, parentes em geral e colegas de trabalho são repletos de complexidade e armadilhas. Temos uma permanente sensação de déficit, estamos quase sempre com sentimento de dívida. Estamos sempre devendo!

A polaridade em mim, no outro e no mundo à minha volta

O grande desafio que vivemos – na maioria das vezes – passa pelo tema das relações. Por quê? Porque ignoramos como masculino e feminino operam em nós, nos outros e na própria organização.

Tanto o masculino quanto o feminino em nós podem ser experimentados em suas versões saudáveis e distorcidas. Neste último caso – só para citar alguns exemplos – a força do masculino vira brutalidade, enquanto objetividade e determinação tornam-se imposição, autoritarismo e teimosia. Em sua modalidade desarranjada, estabilidade torna-se acomodação e o arrebatador amoroso transforma-se em estuprador. Autoconfiança manifesta-se como arrogância, individualidade surge como individualismo. São alguns exemplos do masculino em sua manifestação destrutiva.

O feminino também está sujeito a distorções. A atitude de confiar no fluxo da vida, de espera otimista e receptividade com o destino pode acabar em passividade, desinteresse e descuido com as questões materiais. O desejo feminino de ser preenchido descamba para compulsões consumistas, do mesmo modo que a vontade de confiar e se entregar à vida pode se confundir com omissão. Cuidado vira apego, confiança no destino se expressa como irresponsabilidade e incapacidade para escolher, da mesma forma que intuição ganha contornos de especulação e inferência sem fundamento. A abertura para mudanças torna-se hesitação e insegurança quanto aos caminhos escolhidos.

Relações destrutivas

Evitamos a manifestação distorcida destas energias quando colocamos consciência sobre nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos mais deploráveis e destrutivos. Negar e fingir ampliam nossa capacidade de causar perturbação a nós e a tudo ao nosso redor. Todavia, sempre que observarmos nossa própria destrutividade – por exemplo, nos relacionamentos de toda ordem – aumentaremos as chances de retomar a versão saudável do nosso masculino e feminino. Consciência transforma esta realidade.

Outro campo de distorção passa pela atrofia de uma destas energias. Independente do gênero e da preferência sexual, estar quase que exclusivamente ligado apenas a uma destas energias – anulando a outra – será elemento inibidor de boas relações. Alguém que só opera na energia masculina, bem como aquele que enxerga somente com a lente feminina, viverá um autismo para si mesmo e para os demais ao seu redor. Sua relação soará como rasa, superficial e incompleta. Conscientes ou não, serão indivíduos que se sentirão inaptos para lidar com pessoas e sua crença será de que “não servem para se relacionar com ninguém”. De tanto acreditar nisso – e de se afastar ainda mais da energia que lhes falta – aumentarão as chances de viver a energia que têm – a única que têm – em suas versões destrutivas. Ou, na melhor das hipóteses, mergulharão na solidão e na misantropia, terão aversão ao ser humano e à natureza humana no geral, serão sempre desconfiados dos outros e com forte tendência para antipatizar facilmente. “A humanidade está empobrecida moralmente e não merece alguém decente e íntegro como eu”, será seu pensamento recorrente, a justificar e amplificar seu isolamento e sua decepção com as pessoas.

Existe uma terceira razão para relações malsucedidas, especialmente aquelas ligadas ao amor e ao sexo: a ausência de polaridade. Explico. Todo relacionamento com seu par amoroso depende de polaridade, no seguinte sentido: um opera com maior ênfase no masculino, enquanto o outro opera no feminino. Mas isso não significa desconhecer e neutralizar sua outra energia: naquele momento estou no meu feminino, enquanto minha parceira está no seu masculino, e inverteremos os polos em outros instantes. Podemos brincar livremente com esta alternância, desde que a polaridade esteja presente. A polaridade é especialmente importante no amor e no sexo, independente se nos referimos a casais hetero ou homossexuais. Um brinca com o masculino, enquanto o outro mergulha no seu feminino.

Distúrbios comuns nos relacionamentos

A este respeito, tenho observado uma questão particularmente relevante para distúrbios entre casais em crises de relacionamento. Imagine um casal heterossexual em que o homem tem uma ênfase no feminino e uma mulher com preponderância no seu masculino. A rigor, a polaridade está presente e, portanto, amor e sexo terão seu lugar. Trata-se de uma relação que pode durar muito, ou seja, uma história que pode dar certo por longos anos, dada a presença da polaridade. Algum tempo depois – às vezes, muitos anos depois – uma das partes se cansa do que parece ser (ainda que inconsciente) um jogo de papéis trocados. Ele sente que precisa ampliar sua energia masculina, no mesmo instante em que demanda mais o feminino por parte dela. A crise pode se disparar do outro lado: ela sente falta do seu feminino, quase na mesma proporção em que reclama pelo masculino nele. Há, dessa vez, um desejo de inversão dos polos: ele quer reforçar seu masculino, ou ela deseja ampliar seu feminino; ele a quer mais em seu feminino, ela o deseja mais em seu masculino.

Não é comum que ambos enxerguem isso ao mesmo tempo. Quando os dois fazem este movimento o resultado é bom para superação da crise mais rapidamente. Mas o normal é que o incômodo nasça primeiro em um deles. Alguma fagulha em sua vida pessoal ou profissional dispara a necessidade de ampliar consciência e de viver mais do polo do qual estava mais distante. Se este movimento se tornar de um só, sem provocar mudanças voluntárias na postura do outro, dificilmente o final da história será outro que não a separação. Estes são aqueles casos de separação aos 20 ou 30 anos de casados.

Por outro lado, teremos relacionamentos terminados precocemente quando ambos estiverem no mesmo polo: dois no masculino, ou ambos no feminino. Quando relações assim acontecem, sua longevidade é geralmente curta. A ausência de polaridade nas relações de amor e sexo tendem a encurtá-las sobremaneira.

Por todos estes motivos, fica mais fácil afirmar a vantagem das pessoas na construção de vínculos dentro e fora da empresa quando possuem consciência para a polaridade masculino e feminino. Tornam-se mais aptas para as relações consigo, com o outro e com o mundo ao seu redor pois sabem operar em ambos os polos, no mesmo instante em que conseguem reconhecê-los nos demais. Do mesmo modo em que têm autoconfiança e escolhem com assertividade sua direção, são capazes no minuto seguinte em confiar no fluxo da vida, em esperar que o destino aja com sua própria lógica e sabedoria. Ele ativa o futuro e o espera com receptividade. Propriedades masculinas e femininas, operando em harmonia.

É possível vislumbrar como o mundo corporativo tem amplificado estes problemas. Mulheres tornam-se crescentemente masculinas, homens flertam cada vez mais com valores femininos. Trazidas estas questões para os relacionamentos em seus detalhes mais íntimos, muita confusão se intensifica quando ambos estão mergulhados na falta de consciência para o tema. De igual modo, note como o mundo da gestão tem valorizado crescentemente a alma feminina nas organizações. Perceba como cada vez mais você ouvirá coisas do tipo “precisamos ampliar espaço para amor e carinho nas relações com nossos stakeholders”, “é preciso abrir mais espaço para falarmos sobre ética, significado e propósito”, “precisamos aprender mais sobre a energia feminina de nossa organização”. Alguém que lida bem com estas questões terá inegável vantagem.

texto adaptado do livro “Engajamento”, da minha autoria e publicado pela AltaBooks

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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