Um alerta valioso

No século XIX, era comum entre trabalhadores das minas de carvão a prática de monitorar o nível de gases tóxicos usando canários. Os pobrezinhos eram os primeiros a morrer, sinalizando o momento em que os mineiros deveriam deixar a mina.

Na presença de gases venenosos, como metano ou monóxido de carbono em excesso, o canário morreria antes que os mineiros sofressem ameaça às suas vidas. O canário servia, portanto, como alerta para o perigo. Enquanto estivesse cantando, os mineiros estariam seguros. Um canário em silêncio estaria morto e sinalizaria a necessidade de fuga imediata. Prestar atenção ao seu canto era vital.

O que o ambiente corporativo pode aprender com isso?

Você concordará comigo. Uma frase que escutamos com frequência é essa: “Não me traga problemas! Traga-me soluções”. Ouvimos isso um “guizilhão” de vezes por dia, em diferentes empresas. Está certo? Está errado? Depende.

A intenção de um Líder com essa frase, por vezes, é saudável. Significa a provocação do time para uma atitude accountable, protagonista e proativa. Está certo! Líderes assim empoderam suas equipes para um patamar superior de maturidade. Aceleram o desenvolvimento do time quando adicionam uma especial pitada de “Líder Coach” em sua atuação: a habilidade daqueles Líderes ampliadores do potencial de reflexão e ação dos seus liderados.

O outro lado da moeda é indesejável: expressa o comportamento de não querer enxergar, ouvir e enfrentar a realidade nua e crua. A frase em sua boca – pronunciada com arrogante “sabedoria” – significa uma coisa só: “se vira! não quero saber”. Se der certo, ótimo, você continuará empregado por aqui. Se der errado… bem, você sabe as consequências.

A mesma frase pronunciada por diferentes Líderes produzirá efeitos diversos. No primeiro caso, impulsionará as pessoas a seguirem mais adiante. No segundo, o resultado será medo e menor iniciativa. Por quê?

Medo, pois a insegurança de agir, a falta de orientação suficiente, a incerteza quanto aos parâmetros desejados e a sensação de estar só e sem apoio paralisam alguns indivíduos, que se sentem impotentes para a ação. Assistirão aos problemas sem condições para agir. Quando fazem algo, suas iniciativas são hesitantes e, quase sempre, incompletas, imperfeitas e insuficientes. Por isso, geralmente produzem efeitos negativos. Os resultados serão ruins e chegarão ao Líder quando, novamente, ele pronunciará tão “sábias” – e inúteis – palavras: “Não me tragam problemas!”.

Enfrentar a realidade nua e crua

Jim Collins, em Good to Great, destaca a figura do Líder capaz de agir sobre as questões ao invés de negá-las. Encaram a verdade dos dados e fatos e não perdem a fé do quão capazes serão de solucioná-los com seus times.

Há outros Líderes, entretanto, que castram suas equipes exatamente quando mais querem que elas ajam. O comportamento de fugir dos problemas causará o prejuízo que se deseja evitar. A negação de fatos evidentes impede a tomada das melhores decisões e diminui a capacidade de enfrentar a realidade e de questionar crenças cristalizadas.

Líderes míopes, como já destaquei em artigos anteriores, gostam de rejeitar ou racionalizar contextos que ameaçam suas convicções. Gastam horas das suas equipes – ou até mesmo de consultorias externas – para provar a tese da qual não abrem mão, aquilo que acreditam ser a expressão da “realidade”. Não querem ouvir nada diferente do que desejam escutar.

Qualquer possível questionamento às suas premissas será tratado como informação errada, dado incompleto e imperfeito. Mais estudos, pesquisas e especialistas serão necessários até que se ateste aquilo que se deseja “comprovar”. Dinheiro e tempo preciosos desperdiçados. “Traga-me soluções”, para estes indivíduos, significa “não questione minhas verdades”. O efeito disso é terrível para o engajamento das pessoas mais talentosas do grupo e para os resultados do negócio.

Isto alimenta outro comportamento negativo: o de repudiar visões dissonantes que ameaçam as certezas do Líder. O mensageiro destas informações será “assassinado”. Qualquer um que apresente um possível contraponto será tratado como desengajado, desalinhado e sem comprometimento. Espera-se uma fidelidade canina e cega.

Isto inibirá cada vez mais os indivíduos que não têm vocação para avestruz. Outros, ao contrário, estarão prontos para aderir como rebanho silencioso à esta perigosa jornada de negação da realidade.

Precisamos de “Canários” em nossos times

A empresa testemunhará seus negócios mergulharem nas águas sangrentas do oceano vermelho, onde navegam empresas lentas, caras, paralisadas em seus processos decisórios e sem qualquer inovação em produtos, serviços, gestão e modelos de negócio se não encarar seus problemas de frente. Com Líderes míopes, os resultados serão previsivelmente ruins.

Veja que interessante uma experiência do Google. Em seu livro Um novo jeito de trabalhar, Laszlo Bock relata um grupo dentro da empresa chamado de “Canários”. São pessoas do time que atuam como “dissidentes” e que devem manifestar opiniões divergentes de modo sensível aos problemas e sinceros ao expor suas ideias. O grupo ganhou esse nome inspirado pela prática dos antigos trabalhadores das minas de carvão. Para eles, naquela época, a boa notícia era continuar ouvindo o som dos canários. Para os caras do Google, será ouvir a manifestação crítica dos seus “canários”.

No Google, comenta Bock, estes colegas fazem as vezes de um conselho consultivo e de um time de pesquisa qualitativa. Ademais, tornaram-se uma valiosa garantia de que os funcionários da empresa têm suas vozes ouvidas. Ao consultá-los previamente, explica um membro da equipe de Bock, “nossos maiores críticos se tornam nossos melhores advogados”.

Fazer os problemas serem notados é meio caminho andado. A outra metade é ouvir as opiniões corretas sobre como solucioná-los. Desse modo, falaremos tanto dos problemas quanto das suas soluções.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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