Senso de dono

Sugiro a você a leitura de um excelente livro: do escritor e colunista do The New York Times, Thomas Friedman, Thank You for Being Late.

Nesta obra, Friedman menciona uma ideia que grudou em minha cabeça: “nunca ninguém lavou um carro alugado”. Claro, talvez você conheça alguém que já tenha feito isso: antes de devolvê-lo à empresa locadora, o indivíduo lavou o carro que alugou. Ou talvez tenha sido você mesmo essa pessoa. Não importa. A ideia aqui é a seguinte: cuidamos menos das coisas quando não nos sentimos identicados com elas, quando não temos o tal do “sentimento de dono”. Cuidar com apreço daquilo, sentir-se comprometido e se importar tornam-se emoções incomuns para a maioria de nós, infelizmente.

Completa Friedman: “Quando alguém assume algo com sentimento de dono, é difícil pedir mais dele do que ele pede de si mesmo”.

Compromisso e dedicação

Pense comigo: comprometimento é algo que desejamos quando se imagina o tipo de relação que buscamos para nossos Liderados em relação aos seus trabalhos. Mas o que desperta este nível superior de compromisso? Uma das melhores respostas que você encontrará: autonomia.

Um forte senso de pertencimento é pré-condição para uma relação de qualidade. Sentir-se parte depende da conexão de sentido e significado que experimentamos ao fazer alguma coisa. Somente quando nos dedicamos a temas que nos arrebatam, que guardam relevante relação conosco, é que tal percepção de pertencer amplia nosso desejo de nos comprometer. Este é o passo mágico que a autonomia favorece.

Entre as mais importantes motivações intrínsecas, a automomia eleva o indivíduo a um nível significativo de dedicação, algo que nada e ninguém poderia cobrar dele tanto quanto é capaz de cobrar de si mesmo. Por quê? Está envolvido em desafios que, antes de serem relevantes para seu chefe ou sua organização, são relevantes para ele.

Exemplos inspiradores

O mais notável exemplo é a 3M, com seus conhecidos 15% de tempo livre para que seus funcionários dediquem-se a projetos do seu interesse. Há outros casos bem sucedidos, como o Google, com seus 20% de motivação autônoma, ou o Studio Rosegaarde, da Holanda, com seus 30%. Não sem motivos, tais organizações apresentam sólidas culturas de inovação. A criatividade e o empreendedorismo florescem em ambientes em que certo grau de autonomia é bem vindo.

Outros exemplos inspiram nesta direção, como a Southwest Airlines, com a diretriz que libera seus funcionários – de qualquer nível ou função – para fazerem livremente tudo o que possa satisfazer seus clientes. Na mesma linha segue o Ritz Carlton, quando oferece a cada funcionário anualmente o valor de 2 mil dólares para serem gastos autonomamente com qualquer iniciativa que se mostre relevante para resolver um problema de cliente.

Os 4T’s da motivação autônoma

A autonomia reforça a dor de dono, um sentimento tão bem vindo e altamente declarado como comportamento super desejado entre as equipes. Mas sua manifestação dependerá, em boa medida, de um espaço expressivo de liberdade para trabalhar com autonomia com base no que chamamos de os 4T’s deste tipo de motivação:

  1. Task (ou Tarefa: a possibilidade de escolher o trabalho que será realizado);
  2. Tool (ou Ferramenta: quando podemos escolher ao nosso arbítrio com que ferramentas conduziremos o trabalho escolhido);
  3. Time (ou Tempo: a oportunidade de administrar livremente a alocação de tempo para este trabalho);
  4. Team (ou Time: um dos componentes mais significativos da motivação autônoma: a chance de escolher com que pessoas formaremos a equipe que conduzirá o trabalho).

Pense o quanto isto é poderoso, inclusive para fortalecer o engajamento.

De modo especialmente particular, a autonomia provocará impactos profundos e positivos entre pessoas envolvidas em atividades complexas, não-rotineiras, imprevisíveis e que demandam soluções criativas com alta dose de improvisação. Já pude testemunhar o efeito que isto traz em inúmeros times.

E você? Que experiência pode compartilhar comigo a respeito?

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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