Existe mesmo gente assim?

Dostoiévski definia o ser humano como o ser que a tudo se habitua. Às vezes me pergunto sobre a extensão e profundidade desse hábito. Sei que pode parecer estranho, mas existem pessoas habituadas a sofrer, viciadas em sofrimento. Todos somos testemunhas de pessoas ao nosso redor com tal vício. Dirce Fátima Vieira e Maria Luiza Pires, autoras de O sofrimento como vício, lembram que o sofrimento faz parte da condição humana, cujas raízes ligam-se inclusive a crenças culturais e religiosas. Alguns indivíduos, porém, não conseguem romper a dor e o costume de sofrer.

As autoras referem-se a um estado de escravidão interna e inconsciente que prolonga dores que não precisariam ser sentidas. São indivíduos que adotam uma atitude “sofrente” em relação aos outros e ao mundo. A maioria não percebe nem reconhece que está nessa condição. Pelo contrário, acredita mais na “falta de sorte” e lamenta como tudo é especialmente difícil para si. Não compreende que esse padrão de sentimentos e pensamentos determina atitudes que levam aos insucessos. O próprio indivíduo produz situações geradoras de desarmonia, isolamento, dificuldade, conflito e dor.

Ciclo vicioso: sofro porque sou digno demais

Algumas pessoas vivenciam ciclos de pensamentos e atitudes que obedecem a padrões de repetição. Para elas, são comuns as reações de culpa, autoacusação, vergonha e incapacidade diante de algum problema ou dificuldade. Não raro, tais sentimentos se transformam em angústia, seguidos de diálogos internos torturantes e repetitivos que perseguem o indivíduo de maneira incansável. Daí derivam atitudes que variam entre arrogância, prepotência, distanciamento, ironia, sarcasmo e solidão. Esta, aliás, é aquela que paradoxalmente conecta o indivíduo consigo mesmo, embora do pior modo. Isolado em seu sofrimento e exaurido por seus intermináveis diálogos internos, ele acha “refúgio” nessa autoconexão. É o momento em que o indivíduo se solidariza com sua dor, com autopiedade e com um certo sentimento de dignidade diante de um mundo que não o reconhece nem valoriza.

Nesse recolhimento solitário, estimulam-se pensamentos obsessivo-compulsivos, baixa estima, autocobrança exagerada, autodepreciação, autovitimização, desamparo e mais autopiedade, que realimentam um quadro de sofrimento psicológico. Todo esse negativo conjunto compromete ainda mais as relações da pessoa consigo mesma, com os outros e com seus planos de vida e de carreira, gerando um círculo vicioso de problemas, dificuldades e insucessos. Mergulhamos então em um modelo contraditório de comportamento: desejamos o sucesso e queremos ser amados, porém, fomentamos inconscientemente contextos que afastam as chances de êxito e dilaceram nossos relacionamentos. E a “falta de sorte” é quem leva a culpa!

A vida também é sofrimento

“Toda vida é dolorosa” é o primeiro ensinamento budista. Sofrer será sempre inevitável enquanto estivermos vivos. Faz parte da experiência de viver. Pode existir alguma vantagem nisso? Para Dirce Fátima Vieira e Maria Luiza Pires, “O sofrimento pode ser interpretado como um evento capaz de proporcionar crescimento”. Os aprendizados que daí surgem contribuem para buscarmos novas respostas para inquietudes e inspiram ações que nos levam à superação e à evolução. O sofrimento pode nos mobilizar e ser um motor para a mudança. Assim, sofrer “oferece uma possibilidade de entender o mistério de nossa própria história, resignificá-la e responder eticamente pela vida”, dizem as autoras. A vida é sofrimento e sobreviver é encontrar sentido até mesmo na dor. Como dizia Nietzsche, “Quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como”.

Fará sempre parte da vida cruzar com eventos que não podemos controlar. Alguns nos trarão dor e tristeza. É tão certo quanto estar vivo. A dor e o sofrimento virão mesmo para aqueles que guardam um espírito positivo e uma alegria nata de viver. Diante das variáveis imprevisíveis da vida restará para cada um de nós um único caminho: escolher a atitude com o qual olharemos para a dor e para o sofrimento que não se pode evitar.

Igual reflexão encontramos nos textos de Viktor Frankl, médico judeu e psiquiatra austríaco, autor de Em busca de sentido, obra em que narra seu sofrimento com a prisão em Auschwitz e fala da busca interior que o mantinha vivo e consciente. Frankl escreveu sobre dor, sonhos, fome, sexualidade, política, religião, meditação e até mesmo sobre arte e humor no campo de concentração. O relato é de alguém que busca resignificar sua experiência de viver para se manter vivo, encontrando sentido e significado em cada acontecimento.

Um trecho de Frankl merece destaque:

“No campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas. E havia uma alternativa! A cada dia, a cada hora no campo de concentração, havia milhares de oportunidades de concretizar esta decisão interior, uma decisão da pessoa contra ou a favor da sujeição aos poderes do ambiente que ameaçavam privá-la daquilo que é a sua característica mais intrínseca – sua liberdade – e que a induzem, com a renúncia à liberdade e à dignidade, a virar mero joguete e objeto das condições externas, deixando-se por elas cunhar um prisioneiro ‘típico’ do campo de concentração.”

E o que fazer quando temos este vício?

Joseph Campbell dizia que nossa consciência em geral se transforma pelas grandes provações. Infelizmente, isto não é uma verdade para todos. Algumas pessoas colapsam diante das adversidades, não conseguem transpor o sofrimento e padecem na tristeza. Não conseguem se transformar nem tampouco transformar a realidade à sua volta. Conseguirão romper a dinâmica autodestrutiva que criam e recriam tão somente quando admitirem que se tornaram “viciadas” em sofrer, quando investigarem em suas histórias de vida as crenças que ainda limitam suas atitudes e quando buscarem apoio (de familiares, amigos, psicólogos ou religiosos) para modificar os comportamentos que produzem exatamente os resultados que desejam evitar.

Segundo Santo Agostinho, é preciso refletir sobre nossa razão interior e exterior, sobre o homem interior e o exterior. Trata-se do esforço de “encontrar ecos da face interior na face exterior”, como escreveu Clarice Lispector, procurando no rosto o que lhes vai na alma. Será preciso estimular em si próprio respostas interiores e exteriores que desconstruam as atitudes que geram sofrimento e que construam novas posturas e comportamentos.

Para Campbell, em O poder do mito:

“O mundo interior é o mundo das suas exigências, das suas energias, da sua estrutura, das suas possibilidades, que vão ao encontro do mundo exterior. E o mundo exterior é o campo da sua encarnação. É aí que você está. É preciso manter os dois, interior e exterior, em movimento. Como disse Novalis, “o pouso da alma é aquele lugar onde o mundo interior e o exterior se encontram.”

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

(artigo adaptado do livro “Todo novo começo surge de um antigo começo”, de minha autoria, editado pela Évora)

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

Comments

comments