Algumas empresas parecem sanatório (?!!)

Na intimidade do aconselhamento de carreira ouve-se de tudo a respeito da vida nas organizações. De tudo mesmo! Alguns desses relatos acrescentaram novas reflexões em minha cabeça. A partir do que ouço em Coaching, não resta dúvida de que há muito sofrimento dentro das empresas, mesmo entre as prósperas, inovadoras e líderes em seus mercados.

Os relacionamentos corporativos parecem marcados, em sua maioria, por lutas inconscientes entre indivíduos que invariavelmente definem modelos organizacionais, estruturas e processos que parecem estar a serviço de pensamentos e sentimentos diferentes daqueles declarados “oficialmente” de forma aberta. Impulsos reprimidos soam como fontes determinantes para certas decisões na organização, bem como alguns relacionamentos parecem extensões de tramas familiares levadas indevida e inconscientemente para a dinâmica das relações corporativas. E para ficar ainda mais completo este cenário, há relatos preenchidos por sexo, intrigas, calúnias, infâmias, etc. Falta mais alguma coisa para chamarmos de “sanatório” aquilo que elegantemente denominamos “organizações”?

Leitura imperdível: Imagens da Organização

Foi no contexto dessas reflexões que um livro espetacular caiu em minhas mãos. Estava determinado a estudar os temas de arquitetura e desenvolvimento organizacional quando li, anos atrás, Imagens da Organização, do canadense Gareth Morgan.

De modo original, Gareth analisa as diferentes estratégias quanto a modelos organizacionais por meio de metáforas. Compara cada um dos diferentes tipos de organização a imagens metafóricas, partindo da ideia de empresas estruturadas como máquinas, organismos vivos, cérebros, culturas, sistemas políticos, fluxo, transformação e instrumentos de dominação. Uma analogia em especial tinha tudo a ver com minhas reflexões de momento: a metáfora das organizações como prisões psíquicas. Perfeito!

Para Gareth, mais do que agentes econômicos e financeiros, as empresas são entidades essencialmente humanas, na extensão mais profunda e ampla que esta expressão pode alcançar. Diz o autor que:

“A metáfora da prisão psíquica apresenta um conjunto de perspectivas para a exploração do significado oculto dos nossos mundos tidos como verdadeiros. (…) esta metáfora fornece o impulso para uma análise crítica da organização e da sociedade que pode permitir compreender e lidar com o significado, bem como com as consequências das nossas ações de um modo mais esclarecido. (…) Forças reprimidas se escondem nas sombras da racionalidade. Apresentamos a tendência de temer o irracional e de usar a razão para manter as suas manifestações sob controle. (…) A organização é humana no seu sentido mais completo. Ao nos encorajar a examinar a natureza e as consequências das ações organizacionais, a metáfora também encoraja crescente consciência a respeito da importância do ser humano em quase todos os aspectos da vida organizacional.”

Forças reprimidas escondidas nas sombras da racionalidade

Isto soava perfeito para definir boa parte dos pensamentos e comportamentos corporativos que os diferentes relatos davam conta. As pessoas – inclusive dentro das empresas – têm especial inclinação para pisar em armadilhas muitas vezes criadas por elas mesmas, emaranhadas em processos conscientes e inconscientes que as confinam como prisioneiras de imagens e conceitos por vezes irreais. Em uma palavra, somos enganados por miragens compartilhadas que determinam parte do que falamos e fazemos quanto a normas, políticas e estratégias. Pressupostos falsos e ilusórios combinam-se para formar pontos de vista estreitos e incompletos, que influenciam perigosamente nossas ações dentro da organização.

A metáfora das organizações como prisões psíquicas oferece perspectivas para explorarmos o significado oculto dos nossos mundos tidos como verdadeiros. Ajuda a explicar a dificuldade para se lidar com mudanças e a compreender muito da vida corporativa cotidiana, fornecendo uma pista do quanto a empresa é influenciada pelas inquietações inconscientes dos seus indivíduos, escondidas sob o manto da autoridade, do controle, do planejamento, da racionalidade e da excelência técnico-profissional.

Tudo isso existe mesmo. Mas nada disso existe sem o lado de luz e sombra dos seres que habitam o planeta das corporações. “As organizações não são condicionadas apenas pelos seus respectivos ambientes; são também moldadas pelos interesses inconscientes dos seus membros e pelas forças inconscientes que determinam as sociedades nas quais elas existem”, completa Gareth Morgan.

É possível testemunhar abordagens sobre temas corporativos carregados da tinta tecnológica e permeados pela visão de que as organizações são sistemas cujo êxito depende de uma acurada leitura do seu ambiente competitivo e da capacidade para planejar, organizar, dirigir e controlar seus diferentes recursos. As organizações são isso mesmo, mas não apenas isso. A metáfora oferecida por Gareth põe em relevo o lado mais humano das empresas, muitas vezes “exageradamente” humano, e ressalta a importância de também se levar em conta o lado sutil, subjetivo, difuso, abstrato e inconsciente das organizações.

As empresas e seus colaboradores serão menos reféns de armadilhas na medida em que estejamos abertos e dispostos a caminhos de autoconhecimento que joguem luz sobre tudo o que é mais sombrio em nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos. Esse caminho passa, portanto, pela ampliação do nível de consciência e pela maturidade emocional que fomentam ambientes com pessoas adultas de verdade, responsáveis por suas ações e escolhas, capazes de olhar para as organizações como alternativas alinhadas com seus propósitos.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

(artigo adaptado do livro “Todo novo começo surge de um antigo começo”, de minha autoria, editado pela Évora)

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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