Como reagem os pacientes de doenças incuráveis, quando colocados diante da certeza da morte? Há um padrão identificável em seus comportamentos? Há reações comuns também em seus familiares?

Essas foram as perguntas exploradas por Elisabeth Kübler-Ross em seu livro Sobre a morte e o morrer. Juntamente com alunos de teologia e medicina da Universidade de Chicago, Elisabeth entrevistou durante três anos cerca de duzentos pacientes terminais e percebeu em seus relatos um padrão de reações: negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação.

As reações mais comuns

“Não pode ser”, “deve haver algum engano”, “não acredito que isto esteja acontecendo comigo” são pensamentos comuns à fase de negação e isolamento. Revolta contra Deus, a equipe médica, as enfermeiras, contra os parentes mais próximos ou contra si mesmo é típica da raiva que segue a negação. Negociar com Deus em troca de mais algum tempo de vida, fazer promessas para si próprio ou empreender pequenas negociações com médicos, enfermeiras e familiares pode ocorrer na fase da barganha, na qual o paciente empenha algo em contrapartida à maior longevidade. Rejeitar visitas, medicamentos ou quaisquer formas de entretenimento, como televisão ou leitura, são indícios de que o paciente passa pela fase da depressão. Até que, afinal, começa o processo de aceitação, no qual o paciente não apenas encara sua realidade, como pode até ajudar seus familiares a aceitarem seu destino, cuidando inclusive de providências práticas antes de partir, importantes para a família e para os negócios.

Dentro de um padrão geral, cada um reage em intensidade e velocidade próprias

É claro que o comportamento humano não se desenrola assim tão cartesianamente. Oscilamos de forma sutil e desordenada entre essas fases. É claro também que cada caso tem suas particularidades. Cada indivíduo reagirá diante das adversidades conforme o ambiente social e familiar no qual se desenvolveu. Todavia, o legado que Elisabeth deixou foi nos permitir enxergar um padrão de comportamentos que inspira a observação de como as pessoas reagem às perdas, em suas várias versões.

Lembre-se, por um minuto das perdas – de qualquer natureza – pelas quais passou recentemente. Notará como tais reações soam familiares.

De acordo com relatos dos pacientes ouvidos por Elisabeth, é possível perceber duas atitudes quase redentoras para aliviar o sofrimento das pessoas terminais: ampliar a consciência sobre seus sentimentos e falar a respeito da morte. Pode ser um alento no momento da negação, da raiva ou da depressão sabermos que a maioria dos indivíduos em iguais contextos reage do mesmo modo. Ampliar a consciência para tais reações pode encurtar o caminho para a aceitação. Da mesma forma que falar a respeito da dor, da angústia, do medo, da ira e da incerteza pode aliviar a tensão e o sofrimento causados por estas próprias emoções.

Para Elisabeth Kübler-Ross:

“Os pacientes que melhor reagem são aqueles que foram encorajados a extravasar suas raivas, a chorar durante o pesar preparatório, a comunicar seus temores e fantasias a quem puder sentar-se e ouvi-los em silêncio. (…) Muito ajudaria se as pessoas conversassem sobre a morte e o morrer, como parte intrínseca da vida, do mesmo modo como não temem falar quando alguém espera um bebê. (…) Estou convicta de que prejudicamos mais evitando tocar no assunto do que aproveitando e encontrando tempo para sentar à cabeceira, ouvir e compartilhar. (…) Caso o paciente saiba que encontraremos um tempinho disponível quando ele sentir vontade de falar, e quando formos capazes de decifrar o que diz nas entrelinhas, constataremos que a maioria deles realmente quer dividir suas preocupações com outro ser humano, reagindo nestes diálogos com alívio e uma esperança maior.”

O que podemos aprender com isso? 

Tudo bem, tudo bem. Você tem todo o direito de questionar onde quero chegar com essas referências. Em primeiro lugar, em processos de coaching ou recolocação é comum lidarmos com a temática da perda, e lembrar como ela faz parte da vida. Perdemos a infância depois da adolescência. Perdemos a atenção de nossos pais. Perdemos a juventude, amigos e parentes. Perdemos dinheiro e oportunidades para ganhá-lo. Perdemos inúmeras chances de realizar e experimentar novos desafios. Perdemos relacionamentos. E, afinal, também podemos perder o emprego!

Alguns de nós viverão perdas muito dolorosas. Outros enfrentarão perdas menos atrozes, mas no final do dia ainda serão perdas, e sentidas como tais. Dessa forma, será sempre de grande o estudo revelador das reações comuns às perdas que nos acompanham em toda a vida, literalmente até o seu final. E vamos admitir de pronto: lidamos mal com as perdas. Pode existir algo mais humano do que isso? Afinal, não é tarefa fácil resignar-se a perder.

Há pessoas que esperam pela demissão, ou até planejam com a empresa seus desligamentos. Mas há outros que enfrentam grande choque ao ser comunicados sobre a rescisão de seus contratos de trabalho. Até a comunicação da demissão, vive-se, em geral, um período angustiante de incertezas, mensagens truncadas, explicações incompletas, além de toda uma agenda oculta e insinuante de perigo à vista.

Para Victor Frankl, é comum esperar que depois do choque passemos por uma fase de relativa apatia, que reduz a percepção da realidade, seguida por insensibilidade emocional, desleixo e indiferença. É sempre assim? Claro que não. Mas há inúmeros relatos com roteiros semelhantes.

Da angústia e do choque invariavelmente segue-se o medo. E é nesse ponto que sempre lembrei aos meus clientes de coaching e outplacement não existir certo ou errado nestas emoções. É certo sentir medo? É errado? Ora, podemos dizer que é esperado sentir medo! Sob certo aspecto, podemos até afirmar que é necessário temer pela transição que se inicia. O medo está diretamente ligado ao instinto de preservação. É o que nos impede de atravessar a pé aquela movimentada rodovia sem olhar para os lados e sem usar uma passarela. Mas o medo em excesso pode nos imobilizar e impedir avanços.

Há várias referências aos benefícios do medo. “O medo acrescentou-lhe asas aos pés”, disse Virgílio em Eneida. Alain, em Considerações sobre a felicidade, disse:

“Como explicar que um pianista, que pensa morrer de medo entrando em cena, se encontre imediatamente curado mal começa a tocar? Dirão que nesta altura ele já não pensa no medo, e é verdade; mas prefiro refletir mais perto do próprio medo, e compreender que o artista sacode o medo e o vence pelos movimentos ágeis dos dedos.”

Confesso que adoro esta imagem: sacudir o medo e vencê-lo pela ação! O medo do pianista vencido pelos ágeis movimentos dos dedos! Saul Bellow também escreveu que o medo é um dos soberanos da humanidade, e que “como força moldadora vem logo depois da própria Natureza”.

Medo útil

O medo pode trazer outros sentimentos, como a autopiedade. Fomos colocados nessa situação por nossos agressores, por algozes cretinos e cruéis, desumanos em sua inata estupidez e desconsideração por tudo o que fizemos. Isso lembra La Fontaine, quando escreveu em O Alforje “que somos linces para com nossos semelhantes e toupeiras para conosco”. O problema reside sempre nos outros. E que outro sentimento nasce em decorrência dessas íntimas percepções? Raiva, muita raiva, quase sempre impregnada de disposição em dar uma resposta à altura, como vingança a todos que nos feriram. “Não ficarei muito tempo desempregado. Conheço muita gente. Vou me recolocar rápido, eles verão.” “Vou encontrar uma posição melhor, em uma empresa mais estruturada e competitiva, com um salário melhor ainda.” Concluir sua transição de carreira assume para esse indivíduo o contorno épico de uma vingativa resposta, e não de uma nova etapa em consonância com sua visão de futuro, com seus valores e com seu propósito de vida.

Mas, como conduzir com sucesso uma transição movida por esse tipo de combustível tóxico, que, ao invés de gerar energia positiva para prosseguir, acaba por consumir intensamente o que há de melhor em nós, sem que possamos perceber qualquer progresso ou avanço? A resposta é não, não podemos avançar abastecidos com tal combustível, que nos faz andar e andar sem contudo sairmos do mesmo lugar.

Para Irvin Yalom, não se pode atirar a verdade no rosto dos outros, pois a única verdade real é aquela que descobrimos por nós mesmos. Se a provocação der certo e o cliente se abrir para a própria dor, culpa, vergonha, frustração, tristeza, angústia, insegurança e raiva, admitindo o que sente ao falar de maneira aberta sobre tais emoções, é provável que comece a pavimentar um novo caminho em sua transição. Abre-se uma etapa não para esquecer ou perdoar, mas para aceitar, acolher e integrar tudo isso à sua história. Não para apagar episódios ruins, mas para incorporá-los à sua biografia, como parte de sua trajetória, como algo que aconteceu de verdade e que não pode ser ignorado ou escondido, como algo que é seu e é você.

Assim como no aprendizado que tiramos do estudo feito por Elisabeth Kübler-Ross, falar abertamente sobre o que sentimos libera uma energia vital para a etapa da aceitação. Se o indivíduo não abrir suas persianas o sol não entrará, e será mais difícil prosseguir para uma nova etapa, melhor e mais virtuosa. Vagará entre o medo, a raiva, a confusão e a dúvida, às vezes por muito tempo.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

(artigo adaptado do livro “Todo novo começo surge de um antigo começo”, de minha autoria, editado pela Évora)

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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