Encerrar ciclos anteriores para abrir novos

O processo de encerrar um ciclo para abrir outro pressupõe identificar símbolos e rituais que podem nos ancorar no passado e impedir de avançarmos.

Irvin Yalom, escritor, psicoterapeuta e professor de psiquiatria na Universidade de Stanford, relata em um de seus livros um estudo sobre viuvez e luto que envolveu 80 cônjuges, entre homens e mulheres. Nesse estudo observou-se um padrão de comportamento: os cônjuges que vinham de matrimônios felizes passavam pelo luto com mais facilidade do que aqueles que vinham de relacionamentos conflituosos. Por quê?

A resposta não é tão difícil: aqueles oriundos de casamentos bem-sucedidos, que viveram em harmonia com o cônjuge, tinham histórias de relação prazerosa, intensa e plena. É de se esperar que casais mergulhados em um contexto feliz viveram uma relação na qual o que tinha para ser dito foi dito, o que podia ser vivido o foi na plenitude. É evidente a dor dessas pessoas quando perdem seus companheiros ou companheiras. Entre eles, no entanto, é mais raro aquele nó na garganta por sentimentos que não foram manifestados em vida, palavras que não foram pronunciadas, frases inteiras que ficaram para trás, para sempre.

Por outro lado, entre cônjuges viúvos com histórias de conflitos são mais comuns situações em que muito não foi dito entre o casal, que deixou de viver e compartilhar a vida exatamente pela ausência de harmonia. A morte do cônjuge deixa nesses casos a sensação amarga de algo interrompido, de história inacabada. Como diz Yalom, tais indivíduos vivem um pesar de arrependimento e têm de chorar por si mesmos, pelos muitos anos desperdiçados. Nos casos de viúvos egressos de casamentos tormentosos, tais sentimentos ficam mais complexos e demandam mais trabalho do terapeuta e do paciente para se viver o luto, fazer o término e fechar o ciclo. Talvez um desafio semelhante para os profissionais que viveram com suas antigas empresas relacionamentos difíceis e dolorosos, com intensos sentimentos de perda e não reconhecimento, ou ainda entre aqueles cujo desligamento foi muitíssimo traumático.

Um caso relatado por Yalom me marcou de modo especial. Trata-se de Irene, uma paciente que neste particular mostrou-se uma exceção. Vinha de um casamento “excepcionalmente amoroso e de apoio recíproco”, o que induziu Yalom a acreditar em um luto “relativamente descomplicado”, mas que não ocorreu.

Irene sofreu a provação de testemunhar a doença de Jack, seu marido, na condição de médica e cirurgiã especialista exatamente no tipo de enfermidade que se abateu sobre ele. Jack teve uma morte terrível, e Irene assistiu, impoten- te, enquanto o câncer devorava o cérebro do marido. Foi de fato um pesadelo. Mas outros pacientes viúvos e viúvas relatam histórias de perdas não menos dramáticas, embora enfrentem o luto com um pouco mais de facilidade do que Irene. Por quê?

Na suposição do próprio Yalom:

“Ela se ressentia profundamente de qualquer sugestão de que esquecesse Jack. Dois anos depois da morte dele, os pertences pessoais do marido continuavam nas gavetas de sua escrivaninha, suas fotos penduradas por toda a casa, seus livros e revistas favoritos nos devidos lugares, e Irene continuava a ter longas conversas diárias com ele.”

Continua Yalom mais adiante:

“Irene agarrava-se a muitos pertences de Jack, vasculhando com frequência o conteúdo das gavetas de sua escrivaninha à procura de uma lembrança dele, sempre que precisava, por exemplo, de um presente de aniversário para a filha. Estava tão cercada de lembretes materiais de Jack que eu temia que viesse a ser como a senhorita de Grandes esperanças, de Dickens, uma mulher tão aprisionada na tristeza (fora abandonada no altar) que passou anos vivendo nas teias de aranha do luto, sem nunca despir o vestido de noiva nem tirar a mesa preparada para o banquete de núpcias.” 

Já no terceiro ano de terapia, Yalom insistia com Irene para se afastar do passado, retomar a vida e afrouxar seus laços com Jack. Sugeria-lhe retirar algumas fotografias dele, redecorar a casa, comprar uma cama nova, limpar as gavetas da escrivaninha, jogar coisas fora, viajar para um lugar novo, fazer alguma coisa que nunca havia feito antes, e parar de conversar tanto com Jack. Como Irene reagia a tudo isso? Como se qualquer dessas alternativas fosse uma grande traição à Jack! Era este o seu sentimento.

O que nos imobiliza e não permite avançar para um novo contexto?

O processo de encerrar um ciclo para abrir outro em nossas vidas e carreiras pressupõe identificar símbolos e rituais que podem nos ancorar no passado e nos impedir de avançar em direção ao futuro. No caso de Irene, deixar objetos de Jack intactos e manter o costume de “conversar” todos os dias com ele fazia parte de seus símbolos e rituais que a deixavam amarrada ao passado. Sei que isso fica evidente no caso de Irene, porém, muitos repetimos o mesmo padrão, sobretudo quando diante de perdas, prendendo-nos a símbolos e rituais que reprisam o passado todos os dias no presente.

Lembro-me de alguns casos de amigos que, meses ou anos já afastados das empresas que os demitiram, ainda carregavam crachás e cartões de visita relacionados aos seus antigos empregos. Cartões de visita com e-mails e telefones que não mais lhes serviam e com títulos que não mais possuíam, crachás que não mais lhes garantiam acesso a qualquer corredor ou sala. Então, por qual motivo guardavam tais objetos, com que propósito, para o benefício de quem? Se não há como responder a tais perguntas, então talvez criamos para nós mesmos dificuldades para encerrar nossa história com aquele passado.

Cada caso é um caso. Guardar objetos ou imagens na memória que nos lembrem coisas ou pessoas – principalmente entes queridos que se foram – não pode ser condenado como um pecado em si. Tudo depende do efeito que tais coisas fazem sobre nós. Tudo depende de como reagimos no presente em relação a esse passado. Tudo depende de nos certificarmos de que o passado tem seu lugar na nossa memória, e de que nosso momento atual não sofre do mesmo mal daquele atleta que corre, corre, corre, mas que anda muito devagar, pois carrega pesados chumbos dentro do tênis.

O desafio de nos tornarmos “ex”

Existe um importante desafio no processo de encerrar algum ciclo e de nos tornarmos “ex” de alguém ou de alguma coisa. Segundo Helen Rose Fuchs Ebaugh, professora de sociologia da Universidade de Houston, em seu livro Becoming an ex – the process of role exit, ninguém completa uma transição sem encontrar substitutos. E, neste sentido, entenda “substitutos” da forma mais ampla possível, inclusive do ponto de vista de símbolos e rituais.

Não basta apenas afastar do presente o que havia no passado em termos de papéis, relacionamentos, desafios, compromissos, prazeres, responsabilidades, atribuições e hábitos. É preciso encontrar substitutos para tudo isso, incluindo novos costumes e grupos de referência. Para tudo o que guardávamos no passado é preciso ter um novo referencial no presente. É assim, segundo Ebaugh, que completamos uma transição. Não é verdadeiro nem humano passar por perdas sem viver o luto que elas ensejam. Desde que o ser humano habita este planeta celebra diferentes ritos de passagem para se despedir de seus mortos. A despedida é em si uma forma de encerrar a história que tínhamos com quem se foi. Em certas culturas orientais, os rituais são robustos e muito presentes na vida e na morte das pessoas.

O luto é para ser vivido, no seu devido ritmo e momento. Mas preste atenção, em nosso mundo ocidental as pessoas ainda guardam o costume de se vestirem de preto ao perder algum ente querido? Não me lembro de nenhum caso próximo. Pelo contrário, quantas vezes você ouviu durante um velório ex-pressões do tipo “Nossa, veja como ele está reagindo com força”, “Veja como está conseguindo superar a dor”. Valorizamos aqueles que “superam rapidamente” a perda e não ficam enlutados. Mas é possível pular o luto pela dor e pela perda de algo ou alguém importante? O que é mais comum, e até mesmo recomendado?

O que é mais arriscado?

A história de muitos indivíduos em transição nos ensina que viver o luto com intensidade e verdade cumpre papel relevante no esforço de, na vida, encerrar ciclos, ao contrário daqueles que atravessam essa fase com superficialidade, negando o luto e esboçando aquilo que aos olhos de todos pode soar como “superação” e “força”, dificultando o término de importantes passagens da vida. Entrar em contato com nossa dor cumpre um papel mais a favor do que contra o esforço de encerrar aquele ciclo para abrir outro novo na vida. Não se faz tal travessia sem abandonar – ou substituir, se preferir – símbolos e rituais anteriores, sob pena de viver o drama de Irene, que se acorrentou ao passado e mergulhou enlutada, sem criar condições de encerrar aquela parte de sua história para abrir outros capítulos venturosos, que a vida certamente reserva àqueles que assim o desejam e querem.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

(artigo adaptado do livro “Todo novo começo surge de um antigo começo”, de minha autoria, editado pela Évora)

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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