Qual a melhor postura durante uma difícil transição?

Muitos dirão que “é preciso se manter otimista”. Será?

Manter-se pessimista não parece mesmo ser o caminho, pelo estado de negativismo em que nos mergulha. Então, que postura abre um caminho mais virtuoso para a mudança? Tomarei duas referências bem distintas para responder a esta pergunta, mas que convergem para o mesmo conjunto de ideias: Elisabeth Kübler-Ross e Jim Collins. Ela, em Sobre a morte e o morrer, seu trabalho sobre pacientes em fase terminal, e ele, em Empresas feitas para vencer, obra que trata sobre o comportamento e a estratégia das empresas mais bem sucedidas.

O estudo feito por Elisabeth sugere atitudes francas e abertas por parte dos médicos, familiares e dos próprios pacientes a respeito da enfermidade. É preferível, segundo ela, falar abertamente sobre o problema. A essa atitude sugere-se outra: manter sempre a esperança. É a própria Elisabeth quem explica:

“Ouvindo nossos pacientes em fase terminal, o que sempre nos impressionou foi que até mesmo os mais conformados, os mais realistas, deixavam aberta a possibilidade de alguma cura, de que fosse descoberto um novo produto, ou de que tivesse êxito um projeto recente de pesquisa. O que os sustenta através dos dias, das semanas ou dos meses de sofrimento é este tipo de esperança (…) de que talvez seja o escolhido, o paciente especial, como foi o paciente do primeiro transplante de coração, de que deve ter se sentido como sendo o escolhido para desempenhar um papel especial na vida.”

Elisabeth completa afirmando que “quando um paciente não dá mais sinal de esperança, geralmente é prenúncio de morte iminente”.

Não perder a esperança

Vamos agora pular desse “barco” para outro bem diferente, mas que segue essa mesma direção do vento: falar sobre o problema abertamente, sem nunca perder a esperança.

O livro Empresas feitas para vencer, de Jim Collins, foi um marco no management mundial, com tudo de bom que contém e com todos os equívocos que a história lhe desferiu, sobretudo depois da crise norte-americana de setembro de 2008. Há nessa obra um capítulo chamado “Enfrente a verdade nua e crua (mas nunca perca a fé)”. Sabe qual é o ponto de vista defendido? As empresas bem-sucedidas mantêm a disciplina de enfrentar de frente a realidade e as dificuldades, embora mantenham acesa a esperança de lograrem os êxitos que buscam. Semelhanças com as ideias de Elisabeth não são meras coincidências.

Collins usa um exemplo formidável para ilustrar a combinação entre enfrentar a realidade e manter a fé. Relata o caso impressionante do almirante Jim Stockdale, que foi o militar americano de mais alta patente a viver no campo de prisioneiros de guerra conhecido como “Hanói Hilton”, no auge da Guerra do Vietnã. Conta Jim Collins:

“Torturado mais de 20 vezes em seus oito anos de cativeiro, de 1965 a 1973, Stockdale viveu a guerra sem qualquer direito de prisioneiro, sem data para ser libertado e sem qualquer certeza se sobreviveria para reencontrar sua família. Ele tomou sob seus ombros a responsabilidade de comando e fez tudo o que pôde para criar condições que aumentassem o número de prisioneiros que pudessem sobreviver sem maiores danos, enquanto travava uma batalha interna contra seus captores e suas tentativas de usarem os prisioneiros como instrumento de propaganda enganosa. Em um determinado ponto, chegou a bater em si mesmo com um tamborete e a se cortar com uma lâmina de barbear, ferindo-se de propósito, para que não pudesse ser filmado como exemplo de prisioneiro bem tratado. Trocou informações de inteligência secreta com sua esposa por meio de cartas, sabendo que a descoberta significaria fatalmente mais tortura e talvez a morte. Instituiu regras que ajudavam as pessoas a lidar com a tortura (ninguém consegue resistir indefinidamente à tortura, então ele criou o sistema escalonado que deu aos prisioneiros mais chance de sobreviver).”

Segundo Stockdale, não faltavam otimistas entre os prisioneiros. E o que o destino reservou a eles? Os otimistas eram aqueles que diziam: “Estaremos fora daqui na época do Natal”. Bem, o Natal chegava, o Natal ia embora. E eles diziam: “Estaremos fora daqui na Páscoa”. E a Páscoa chegava e ia embora. E depois vinha o Dia de Ação de Graças, e o Natal de novo. E eles morriam com o coração partido. Algo parecido com a chamada “ilusão de indulto”, citada por Viktor Frankl no livro Em busca de sentido, no qual escreveu: “a pessoa condenada à morte, precisamente na hora da sua execução, começa a acreditar que ainda receberá o indulto justamente naquele último instante”. Completa Stockdale:

“Esta é uma lição muito importante. Você nunca deve confundir a fé em que você vai vencer no final – que você nunca pode se dar ao luxo de perder – com a disciplina de enfrentar a realidade nua e crua de sua atual situação, seja ela qual for. Jamais perdi a fé no final da história. Nunca duvidei – não apenas de que sairia vivo, mas que também venceria no final e transformaria aquela experiência em um divisor de águas da minha vida – experiência que, em retrospectiva, eu não trocaria por nada.”

Não perder a “vontade de futuro”

Outra referência que serve de inspiração para a ideia de manter a esperança sem deixar de enfrentar a realidade é a história de um prisioneiro em Auschwitz narrada por Frankl, que no início de março de 1945 teve um sonho com uma voz que se oferecia para responder a qualquer pergunta. Ele escolheu perguntar para a tal voz: “Quero saber quando a guerra terminará para mim”. Queria saber quando cessariam seus sofrimentos. E a resposta que ouviu em sonho foi “31 de março”. Para Frankl, “a experiência desse sonho mergulhou-o em uma grande esperança. A realidade da guerra, porém, continuava dura e cruel e as chances de liberdade pareciam ainda distantes. A mensagem recebida em sonho dava ao prisioneiro sinais de que se frustraria”.

Frankl conta que em 29 de março seu colega foi “repentinamente atacado por uma febre alta”. Em 30 de março caiu em pleno delírio e, por fim, entrou em coma. “No dia 31 de março ele estava morto. Falecera de tifo exantemático.” A rendição das tropas alemãs foi oficializada em 2 de maio daquele mesmo ano.

Quem conhece as estreitas relações existentes entre o estado emocional de uma pessoa e as condições de imunidade do organismo, compreenderá os efeitos fatais que poderá ter a súbita entrega ao desespero e ao desânimo. “Em última análise, meu companheiro foi vitimado porque sua profunda decepção pelo não cumprimento da libertação pontualmente esperada reduziu drasticamente a capacidade imunológica de seu organismo contra a infecção de tifo exantemático já latente”, completa Frankl. Paralisaram-se sua fé no futuro e sua vontade de futuro, acabando seu organismo por sucumbir à doença. Assim, a voz do seu sonho acabou prevalecendo, ou seja, a guerra terminou mesmo para o prisioneiro, na data prevista, mas tendo sua morte como desfecho.

Frankl cita uma grande mortandade no campo de concentração no Natal de 1944 e Ano-Novo de 1945, creditada por ele à:

“(…) habitual e ingênua esperança de estar de volta em casa já para o Natal. Como, porém, as notícias dos jornais fossem tudo menos animadoras, ao se aproximar aquela data, os reclusos foram tomados de desânimo e decepção gerais, cuja perigosa influência sobre a capacidade de resistência dos prisioneiros se manifestou justamente também naquela mortandade em massa.”

Para passar por tudo aquilo sem colapsar era preciso estar orientado “para um alvo no futuro”, um “porquê” de sua vida, para que estivessem à altura do terrível “como” da existência presente.

O que Elisabeth Kübler-Ross, Jim Collins e Viktor Frankl trazem em seus relatos guardam grande convergência entre si: os desafios mais difíceis da vida são vencidos menos pelo que o senso comum chama de “otimismo” e mais por um olhar claro para a realidade, sem ingenuidade e autoengano, com fé e esperança regadas pelo sentimento de que há um porquê naquele contexto, um significado e um propósito maior, que mantém viva a vontade de futuro.

Ouça os sobreviventes dos Andes e encontrará relatos semelhantes. Há um aprendizado importante em todas essas histórias: se há um caminho para o melhor em nossa vida, ele passa, com certeza, por olhar o pior de perto, sem filtros e miragens. Some a isto a atitude de manter a esperança e o indivíduo abrirá um caminho virtuoso à sua frente. Não foi por acaso que as pessoas mais bem-sucedidas que testemunhei em suas transições eram aquelas exatamente que combinavam estas características: falar abertamente sobre suas dificuldades, encarar a nua e crua realidade de frente e não perder jamais a fé de um final feliz.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

(artigo adaptado do livro “Todo novo começo surge de um antigo começo”, de minha autoria, editado pela Évora)

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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