“Equilíbrio” é trabalhar menos?

Alguém tem dúvida de que trabalharemos cada vez mais? Alguém acredita que chegará o dia em que as pessoas terão jornadas mais leves em seus trabalhos? Podemos creditar à tecnologia um mundo mais fácil, menos penoso e por isso mais suave?

O efeito mais imediato da tecnologia foi permitir que trabalhássemos mais: no trânsito, no banheiro, nas férias ou no restaurante com nossos filhos. Faz tempo que estamos conectados por completo, pelo menos enquanto estamos acordados. A sensação é a de trabalhar mais, e não de uma vida mais “equilibrada”. Aliás, não é sem motivos que uma das questões mais prementes nas organizações seja o famigerado equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Quanta incoerência!

Tenho sido, todavia, uma voz dissonante nesta conversa. Minha experiência como consultor de carreira e executivo de RH trouxe-me uma certeza incômoda: há muita incoerência nesta conversa. Boa parte dos mais queixosos sobre como suas vidas estão sobrecarregadas de trabalho abrem seus e-mails em seus smartphones assim que chegam em casa, mal dando tempo para um afetuoso “olá” para a família. Correm para suas caixas de entrada antes de um olhar verdadeiro de “oi, eu te amo” para seus filhos. Repassam mensagens em seus grupos e redes sociais antes de tirarem os sapatos. Mas quando respondem a pesquisa de clima feita pela empresa, geralmente reclamam que não têm tempo para a vida pessoal. A culpa é da empresa, do chefe, do Temer, do Trump, sei lá! O que está por trás disso?

É óbvio que trabalhar muito cansa, exaure e por vezes nos tira tempo com pessoas queridas e de atividades do nosso interesse pessoal. Mas não creio que este seja o ponto central da questão. Não acredito que o problema esteja na aritmética de horas investidas no trabalho versus as horas investidas em assuntos de vida pessoal.

Não administre seus relacionamentos por meio do Excel

Saí da Natura em 30/6/2011. Meu sentimento era de dívida: sentia-me em falta com esposa e filhos. Precisava eliminar aquele déficit. Encontrei o que me parecia ideal para saldar meu débito emocional com eles: enfiei todo mundo num avião em 01/7 daquele mesmo ano, para uma viagem ao exterior de 26 dias.

Numa certa manhã, ao repetir minha a de ser o primeiro a acordar e de despertar a todos alegremente da cama – com o roteiro do dia anunciado com entonação e estilo de monitor de animação – percebi algo revelador. Era o décimo dia de viagem. Ao acordar, Lívia – minha filha, então com 8 anos – toda descabelada e zonza de sono, olhou-me com certa angústia e perguntou:

– Pai, quantos dias faltam para acabar a viagem e voltarmos para casa?

Fiquei congelado. Não sabia o que responder. Não pelo motivo de ter esquecido quantos dias faltavam, ou por ignorar a aritmética básica da subtração entre 26 menos 10. Meu problema era a “tradução simultânea” que meus olhos e ouvidos faziam do que a Lili de fato me perguntava naquele instante:

– Pelo amor de Deus, pai… quantos dias faltam para acabar esta tortura? Quantos dias ainda teremos que aguentar você??!!

Não tinha dúvida de que esta era a melhor expressão do sentimento dela naquele momento. Aquele olhar de “não estou mais aguentando você” me torturou pelo resto do dia. E da viagem! Mas tirei um importante aprendizado daquela experiência.

É comum entre todos nós esta sensação permanente de “estar em dívida”. Estamos sempre devendo emocionalmente algo a alguém. Não quero entrar no mérito das dívidas em si. Algumas existem de fato, outras são miragens do nosso inconsciente. Seja lá a explicação, o fato é a maneira como resolvemos a questão: com uma planilha Excel nas mãos, ou seja, com uma “contabilidade emocional” imaginária que distribui horas de atenção entre aspectos da vida pessoal e profissional. Preciso de “x” horas com ele… preciso de “y” horas com ela… preciso estar com eles por “z” dias… E assim gerenciamos nosso movimento contábil:: débitos para um lado, créditos para outro.

O que há de errado nisto? O ponto central aqui é o seguinte: a lógica das relações (inclusive consigo próprio) não conhece contabilidade, tampouco o Excel. Não é possível compensar horas fazendo contas. A sensação de equilíbrio nos relacionamentos interpessoais de qualquer tipo depende de duas variáveis decisivas, mais importantes do que nossa capacidade para lidar com as operações básicas da matemática: nosso nível de presença verdadeira e o significado das experiências. Explico.

Você já esteve diante de alguém que olhava para você, mas não o enxergava? Que olhava “através” de você? Que ouvia o que dizia, mas não escutava? Que estava lá somente com o corpo, mas com a alma em algum outro canto? Eu conheço sua resposta: “sim, várias vezes”. Ao invés de uma presença plena e intensa, quantas vezes oferecemos a nós e aos demais nossa mais retumbante ausência? Mais do que deveríamos, infelizmente. Estamos ali, mas só em parte.

Testemunhei inúmeras vezes – inclusive com a Lili – o enorme valor de uma presença verdadeira, intensa e empática, cujos efeitos não se comparam com horas e horas de companhia regada a ausência e desconexão. Dessa forma, estaremos sempre distantes do equilíbrio desejado nas relações quando nossa resposta for tão somente aritmética, desprovida de atenção sobre a intensidade de presença que somos capazes de oferecer – a nós mesmos e aos outros.

Assim, o começo da conversa sobre equilíbrio de vida pessoal e profissional passa – em primeiro lugar – pelo exercício da presença. Nosso nível de presença nas relações constrói confiança. O oposto também é verdadeiro: nossa ausência diminui a capacidade de confiarem no que falamos e fazemos.

Ficamos mal quando não estamos em paz com nossas escolhas

Meus anos de experiência com aconselhamento ensinaram-me a perceber quando as pessoas usam a história de desequilíbrio entre vida pessoal e profissional para esconder – de si mesmas, em primeiro lugar – uma dura realidade. Um forte sentimento de incoerência e inadequação permeia seus olhares, narrativas e movimentos: elas não estão bem com suas escolhas de vida e carreira. Sem que se deem conta, o maior incômodo que expressam é por não estarem satisfeitas com os caminhos que escolheram até aqui. Isto alimenta diariamente uma sensação difusa de não estar nem cá nem lá, de não pertencer, de estar deslocado, de estar em algum tipo confuso de contramão.
Não se fica muito tempo neste desconforto sem que algum tipo de crise apareça. Demissão, problemas financeiros, feedback ruim numa avaliação de desempenho, separação, desencontros e desentendimentos em nossas relações desenham quadros críticos. Somente com o tempo, tudo isso revelará alguma vantagem, sempre que utilizarmos a crise como modo de ampliar consciência para a qualidade das nossas escolhas de vida e carreira, bem como para seu maior – ou menor – alinhamento com nossos maiores valores e propósitos. A pior resposta possível, todavia, será aquela em que recorreremos à ilusão da contabilidade emocional medida em horas.

Poucos sofrimentos são tão intensos, por exemplo, quanto estar em um lugar com o qual não nos identificamos. É ruim demais trabalhar numa organização sem um sentimento de pertencimento. Isso sim é castigo!

Neste momento em que você lê estas linhas pessoas chegam e saem dos seus trabalhos sentindo-se violentadas por coisas que escutam e testemunham dos demais. Trata-se de um conjunto de linguagem e atitudes que agridem seu código interno de valores. “Isto não poderia ser tratado dessa forma”, diz você em seus diálogos internos, várias vezes. Reflexões do tipo “eu nunca faria isto deste jeito” ou “eu nunca falaria dessa forma” são sinais mais do que evidentes de que você perdeu – se é que algum dia teve – a identidade com aquele lugar e com aquelas pessoas. Você não se sente alinhado com os valores vividos ali.

Um sistema de valores – tanto individual quanto organizacional – hierarquiza tudo aquilo importante para nós, aspectos que não estamos dispostos a negociar, abrir mão. Todo sistema de valores orienta comportamentos, estimula certa linguagem e norteia a maneira como agimos e escolhemos – na vida pessoal e na profissional. Para as organizações, os valores sinalizam os comportamentos que se deseja estimular em seus colaboradores, sobretudo quando precisam se relacionar entre si, com clientes, fornecedores, governo, comunidade e demais stakeholders.

De igual modo, posso enxergar no meu trabalho – no ambiente, nas pessoas e nas minhas atribuições e responsabilidades – um conjunto que me põe em contato com uma sensação maior do que trabalhar: viver um propósito. Não é só um emprego, uma ocupação que gera renda, mas também algo que me mobiliza com sentido.
Quer um bom teste a este respeito? Note como você fala do seu trabalho com amigos e parentes. Que referências emprega quando o assunto é o seu trabalho, suas tarefas, os colegas com quem interage, o ambiente e a liderança. Desfilar críticas a todos estes aspectos pode ser parte das nossas projeções inconscientes, expressão da nossa falta de autoconhecimento que nos faz de vítimas aos nossos próprios olhos de algozes para todo lado, que não nos reconhecem o suficiente em nosso valor e contribuição. Mas isto pode significar, também, outro sinal de desalinhamento. Viver aquela realidade com aquelas pessoas não me preenche, não me nutre como algo capaz de ampliar caminhos para as melhores expressões como pessoa e como profissional.

Por esses motivos, prefiro falar em integração de vida e carreira, em vez de equilíbrio. Vamos trabalhar muito – cada vez mais – e por isso tem que fazer sentido. Perceber que nossas diferentes dimensões estão integradas pressupõe:

Lembrar-se da sua perspectiva integral: você é corpo, mente, emoção e espírito. O que fazemos e como estas coisas são compartilhadas com as pessoas ao nosso redor precisa ter alto significado.
Oferecer presença verdadeira nas relações, para construir e manter vínculos significativos.
Buscar mais do que um emprego: viver sua vocação, seu chamado e seu propósito, sentindo que serve o mundo por meio dos seus talentos. Fazer escolhas de vida pessoal e profissional que estejam alinhadas com seus mais importantes valores, sentir-se responsável por tais escolhas e em paz com elas.

Esta combinação trará a você a sensação de integrar os diferentes aspectos de vida e carreira. Então fará tudo isso valer muito a pena!

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

(artigo adaptado do livro “Engajamento”, de minha autoria, editado pela AltaBooks)

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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