As pessoas à nossa volta também vivem a transição conosco

Em momentos de transição, o desafio é conseguir disciplina emocional. Eu sei: não é nada fácil.

O mais difícil é controlar os outros ao nosso redor, como familiares e amigos. O modo como reagem pode nos envenenar. Quase sempre o veneno inoculado não é intencional, não há maldade nas palavras e nas ações. Há desinformação e dificuldade que essas pessoas vivem por conta da nossa transição.

Quando algo muda na vida e na carreira, quase sempre mudará também para as pessoas mais próximas. Isto é evidente, embora invariavelmente ignorado. Choque, angústia, medo e raiva são emoções que essas pessoas talvez vivam, cada qual ao seu tempo e com sua intensidade. E como lidar com isto?

Em primeiro lugar, fale abertamente sobre tudo. Exponha suas emoções e expresse seus sentimentos. Explique como planeja gerenciar sua transição, como implementará seu plano de ação e como pilotará as despesas domésticas para readequá-las a esse momento, bem como quais serão os sacrifícios necessários.

Se estiver em processo de recolocação, conte-lhes como funcionará e que benefícios proporcionará. Evite eufemismos do tipo “estou no mercado”, expressão geralmente usada para substituir outra mais crua: estou desempregado! Conheci há pouco tempo uma forma mais criativa para a mesma expressão: indivíduos desempregados são aqueles “in between jobs”, ou literalmente “entre empregos”. Usar expressões mais amenas – embora não sejam da minha preferência – não é um pecado em si, desde que não sirvam para diminuir a consciência sobre a realidade, tanto a sua quanto a daqueles mais próximos a você, como pais, cônjuges e filhos. Não se pode tirar os olhos da realidade a ser enfrentada. Falar abertamente sobre ela é um caminho útil e necessário neste sentido.

Sua transição pode servir de grande aprendizado aos seus filhos

Tenha atenção especial com seus filhos. Atuar como consultor de carreira me legou uma certeza: a forma como você encara sua transição será testemunhada de perto por seus filhos. É impressionante a quantidade de pessoas que relatam em suas histórias de vida lembranças marcantes da infância relacionadas à demissão do pai ou da mãe. A maneira como o assunto foi tratado por todos dentro de casa – e não apenas pelo demitido – foi decisiva para o conjunto de crenças desses indivíduos, para o bem ou para o mal. Para aqueles com filhos, mostrar como encarar uma situação importante de mudança torna-se uma oportunidade de aprendizado sobre superação e sobre como lidar com as emoções na adversidade. Por outro lado, viver esse processo de modo inadequado pode significar uma péssima experiência para os filhos e uma possível deformação no seu conjunto de crenças.

Demissão secreta

Lembro-me de um caso que me surpreendeu, mas que serviu de lição a este respeito. Era um executivo competente, com cerca de 45 anos, que enfrentava sua primeira demissão na vida. Seu desligamento foi recebido com grande choque. Wagner não tinha lido no ambiente da empresa nada que o pusesse em estado de alerta. Pelo contrário, estava em campo, de peito aberto, e quando menos esperava foi comunicado sobre sua demissão. Iniciou seu processo de recolocação decidido a fazer logo seu currículo e partir rapidamente para a fase de networking. Seus esforços, entretanto, não resultaram em recolocação rápida, como esperava, o que o conduziu para muito desânimo.

Em resposta, o Coach que o atendia à época decidiu ampliar a frequência dos encontros com ele, com o intuito de reforçar seu plano de ação e detectar eventuais falhas e oportunidades. Foi quando, nessa sequência intensificada de encontros, algo importante se revelou. Wagner confessou que sua demissão era um segredo para todos em casa. Sua esposa e seus filhos nada sabiam. Todas as manhãs acordava bem cedo e saía de terno e gravata em direção a cafés espalhados pela cidade, onde ficava a maior parte do tempo.

Foi difícil convencê-lo de que sonegar a informação sobre sua demissão não era bom nem para ele nem para sua esposa e filhos. Optou-se então pelo caminho mais apropriado em um processo de aconselhamento: cobri-lo de questionamentos:

  1. Como isso marcaria seus filhos ao descobrirem a farsa do pai?
  2. Que tipos de crenças cresceriam ali, no contexto daquela mentira?
  3. Como suas crianças reagiriam no futuro diante de perdas e adversidades?
  4. Como esperar apoio e cumplicidade da esposa para seus desafios e sacrifícios criando miragens e falseando a realidade?

A sensação de fraude

Não foi fácil, porém, felizmente ele se convenceu a abandonar a fraude que sua vida tinha se tornado. Percebeu que quanto mais tempo mantivesse aquela história, mais dificuldade teria para sustentá-la. E, afinal de contas, convenceu-se de que não tinha acontecido nada em sua biografia que fosse razão para vergonha ou constrangimentos. Encarar sua realidade criou uma dinâmica virtuosa em seu processo, que alterou de modo positivo sua abordagem em networking e suas perspectivas de continuidade de carreira.

Outra experiência marcante foi a de um cliente que se sentia humilhado pela esposa. Tinha sido demitido depois de dez anos em uma multinacional europeia. Era um executivo conhecido no mercado, realizado financeiramente e com boa rede de contatos. Ruy soube lidar bem com seu lado emocional depois da demissão, mas o difícil era chegar em casa todos os dias. Ele mal completara um mês de recolocação e sua esposa já fazia cobranças exageradas. E o pior de tudo: na frente dos filhos adolescentes.

Se isso não bastasse, era comum surgir a pergunta em almoços e encontros com a família: “Novidades, Ruy? Já conseguiu alguma entrevista?”. Não conseguimos evitar este tipo de situação… Não podemos controlar os outros! Meu conselho: ponha na cabeça de antemão que isso vai ocorrer. Você não conseguirá evitar. Só tem um jeito: prepare-se emocionalmente para as perguntas incômodas, assim não será pego de surpresa. Aliás, isto não é nenhuma surpresa! Acontecerá várias vezes. Então, quando fizerem a pergunta, faça o seguinte: responda! Responda de forma objetiva e sincera. Responda! Não torne isto um tabu.

Quanto à dificuldade que vivia com a esposa, Ruy relatou este fato com tristeza e constrangimento para o consultor que cuidava do seu processo. Como poderia se preparar adequadamente para contatos e entrevistas? Como poderia acelerar seu processo arrastando pesadas correntes?

Como na maioria das vezes, a causa de tal situação residia na desinformação e nas emoções de perda vividas pela esposa em razão da transição do marido. Não era vontade deliberada de humilhar e constranger, mas falta de informação misturada com incerteza. Ou seja, uma mistura ácida e perigosa entre desinformação e medo. A solução foi trazê-la para uma reunião com o consultor do seu marido para apresentar em detalhes as etapas do processo de recolocação. Foi nesse contexto que ela revelou nunca ter tido experiência profissional, o que aumentava sua dificuldade em lidar com aquela situação e trazia inconscientemente um sentimento de culpa por não ajudar o marido. Como não estava consciente disso, sua resposta era na forma de cobrança agressiva. Percebeu felizmente a necessidade de modificar seu comportamento, o que provocou efeito imediato no processo do Ruy.

Não se esqueça de que não viverá sozinho sua transição. Aqueles mais próximos também sofrerão impactos das suas mudanças. Será preciso atentar às emoções de todos durante o processo, informar e ouvi-los quanto às suas incertezas e preocupações. Falar e escutar servirá em boa medida para cuidar das reações mais comuns a esse contexto que também vivem os que estão ao nosso redor.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

(artigo adaptado do livro “Todo novo começo surge de um antigo começo”, de minha autoria, editado pela Évora)

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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