Em geral os trabalhos de consultoria não demandam investimentos significativos quanto à infra-estrutura física. Até porque o principal ativo que o consultor coloca no mercado é ele mesmo, com todo seu conjunto de conhecimentos, informações e experiências.

O consultor precisará sim de uma base administrativa, onde possa ler, pesquisar e elaborar seus relatórios. Mas pode ser um pequeno escritório, inclusive em sua própria casa, desde que isso lhe assegure condições minimamente adequadas de trabalho. Ao invés de funcionários pode ter parcerias, ou subcontratar outros consultores durante o projeto, sem que representem custos fixos. Essa base administrativa pode até mesmo ser compartilhada com outros consultores.

Ser consultor de empresas tem suas vantagens. Talvez a principal delas seja a maior liberdade, não só para administrar seu tempo, mas também para escolher os tipos de projetos e de clientes com os quais se deseja conviver. Projetos que enriqueçam suas experiências, seu conhecimento e suas informações.

Claro que no início a situação nunca é fácil. A tendência ao iniciar é ser menos seletivo e preencher o tempo com trabalhos que assegurem renda. Com os resultados dos primeiros projetos somam-se experiência e prestígio, que permitirão maior critério na alocação do tempo do consultor.

Abrir uma consultoria é como colocar um jet-ski no mar, ao invés de um petroleiro. Não leva tempo para tirá-lo do mar. Não são necessárias grandes manobras para mudar de direção. O investimento e o risco são pequenos e estimulam o desafio de tentar.

E quais as principais desvantagens da consultoria? Costumo citar as seguintes: solidão, frustração pela não implementação, instabilidade e oscilação de receitas com picos e vales em projetos.

Solidão é a típica desvantagem dos empreendedores. É fruto da ausência daquele suporte de quando éramos executivos de empresas, com seus aparatos corporativos. Precisávamos falar com alguém do Jurídico? Com alguém de Marketing? Ou com aquele pessoal da Logística? A distância era curta. Às vezes um único ramal nos separava deles. E agora? A quem recorrer? A sensação é de solidão.

Entretanto, ao refletir melhor percebemos que parcerias e sociedades são alternativas para evitar esse tipo de solidão. Parcerias com outros consultores, que podem atuar conosco em projetos, dentro de suas especialidades. Ou mesmo sociedade com indivíduos que complementam nossa falta de experiência em certo tema. Ao lembrar das épocas como funcionários de empresas devemos nos perguntar: “Até que ponto eu também estava ‘só’ nas companhias onde trabalhei como empregado? Qual era de fato a liberdade que eu tinha para mobilizar os recursos da empresa, especialmente aqueles não relacionados à minha área?”. Tudo isso para concluir que, talvez, nada tenha mudado de substancial neste particular ao nos tornarmos consultores. Mas um aspecto faz grande diferença. Como executivos estávamos presos aos recursos da companhia, ainda que não fossem bons. Aquele pessoal da Logística não é suficientemente preparado? Paciência. É com eles que devemos falar. Já os consultores têm mais liberdade para promover parcerias com especialistas que “entregam” qualidade. Quando isso não ocorre, procuram parcerias com outros profissionais e não ficam atados aos de qualidade inferior.

Outra desvantagem está relacionada com a comum frustração de alguns consultores, que apresentam diagnósticos e apontam soluções para certos contextos, mas não têm a caneta em suas mãos para fazer acontecer. Ou mesmo para participar da implementação dessas idéias. Claro que em alguns projetos de consultoria a implementação é parte estratégica e fundamental do trabalho. Mas sem dúvida existem projetos que não ensejam implementação pelo consultor – ou com o consultor.

Lembro-me de uma empresa, cliente da minha consultoria, cujo projeto consistia na implantação de uma nova área de negócios. Eu deveria sugerir o que fazer e participar da implementação das propostas. Mas era incrível como não sabiam como lidar comigo. Excluíam-me de algumas reuniões internas, para depois refazê-las com minha participação. Tratavam desnecessariamente algumas informações como “confidenciais”, que eram fundamentais para a implementação. Quando se davam conta do equívoco, o cronograma já estava bem atrasado. Isso me divertia, pelo ridículo da situação… mas também me irritava e frustrava bastante! Ossos do ofício…

Há de fato empresas que não sabem lidar com seus consultores. Ou pior: empresas que contratam consultores apenas para ratificarem suas estratégias e decisões, ainda que enormemente equivocadas. Sorte nossa quando percebemos isso a tempo.

Mas pense comigo sobre essa alegada desvantagem. Quantos executivos apresentam idéias que depois são engavetadas? Quantos funcionários produzem soluções em suas organizações, mas não participam das implementações? Quantos geram excelentes idéias mas não encontram resposta imediata de seus chefes? Até que ponto esses indivíduos vivem situações diferentes daquelas experimentadas pelos consultores? Sinceramente, não vejo muita diferença.

Instabilidade costuma ser outra desvantagem relacionada à consultoria, sobretudo quando comparada ao emprego convencional. “Preferia ser executivo de uma grande empresa, com emprego e salário garantidos todo mês”. Meu Deus do céu… quem de nós ainda pode imaginar que exista estabilidade nas atuais relações de emprego? Quem será mais fiel a nós: um cliente ou um chefe? Um cliente ou meu patrão? Difícil, hein?

“Mas Rogério… a instabilidade também se expressa pelos picos e vales de projetos”, pondera você. Hoje o consultor tem projetos e, portanto, faturamento. Amanhã não os tem mais. Perde no vale tudo que ganhou no pico. É verdade. Isso realmente pode acontecer. Acontece mesmo. Mas afirmo que a incidência é maior com os consultores que não possuem uma estratégia de administração do tempo. Com consultores que esquecem a máxima de “sempre gerar demanda para sua própria oferta”, como veremos mais adiante. Acontece também com empregados e executivos, cujas empresas decidem descontinuar repentinamente projetos e negócios, por ordem da matriz, por restrições orçamentárias, por mudanças inesperadas de mercado, etc. Portanto, responda com sinceridade: onde existe plena e verdadeira estabilidade?

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

(artigo baseado no livro “Empreendedorismo na Veia”, de minha autoria, editado pela Elsevier)

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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