Qual a diferença entre procurar emprego e procurar trabalho? Os indivíduos que planejam empreender por conta própria viabilizarão para si trabalho, e não emprego. Qualquer que seja o caminho escolhido neste caso – consultoria, um novo negócio, uma franquia – será um novo trabalho e não um novo emprego. Procurar trabalho tem tudo a ver com carreira empreendedora, embora este não seja o único caminho. Para quem deseja emprego, o melhor também será uma postura de procurar trabalho. Vejamos como.

Carreira empreendedora como opção

A alternativa de empreender ganha peso nas estatísticas de transição de carreira. Primeiro, porque no mercado há mais trabalho do que emprego, o que enseja mais oportunidade para aqueles que desejam empreender. Segundo, porque em processos de recolocação não raro encontramos profissionais maduros, no auge de suas carreiras, com muita história e experiência relevante em certos segmentos de negócios. Não é de se estranhar que indivíduos nesse contexto – e com alguma reserva financeira – optem pelo caminho de empreender.

Outro aspecto que favorece a escolha de carreiras empreendedoras está relacionado ao momento atual de negócios no Brasil. O mercado de franquia é grande e há opções para todos os tipos de ramos e portes de investimento. Também há espaço para autônomos e consultores venderem suas especializações, abrirem sua consultoria.

Por outro lado, empreender se torna o único caminho de carreira para indivíduos com menor empregabilidade aos olhos do mercado, quer por idade ou pelo tipo específico de competência funcional menos demandada, substituída ou fundida com outras. De todo modo, seja pela razão que for a opção de empreender para esses indivíduos é o plano B, que se torna compulsoriamente plano A.

Mudar modelo mental: procurar trabalho para conquistar um emprego

Mas há outra forma de enxergar esta questão, independentemente se você quer ou não empreender por conta própria. Trata-se da mudança do seu modelo mental, no sentido de procurar trabalho mesmo se sua opção for por um novo emprego. Refiro-me à postura de abordar o mercado de forma a procurar clientes, em vez de empregadores, de se apresentar como fornecedor de serviços e competências, em vez de um indivíduo em transição de carreira procurando emprego.

Pessoas de nível sênior, com histórias bem-sucedidas, realizações maiúsculas e trajetórias que ensejam altos cargos em empresas de relevo, terão sempre mais dificuldade em procurar emprego. Não é tão simples olhar para elas e imaginá-las com currículo embaixo do braço, participando de entrevistas. Não é fácil olhar para elas e associá-las às vagas que temos dentro da empresa. Pode parecer loucura, mas são indivíduos que não parecem procurar emprego, ainda que estejam procurando!

Não se pode seguir adiante com a transição sem analisar como o mercado encara nossa história e nosso momento. Em certas circunstâncias, será constrangedor ser abordado para uma possível vaga. Se formos alguém percebido como “sênior”, quer pela idade ou pelo fato de já termos ocupado cargos gerenciais e de liderança, geraremos desconforto nos demais em nos sondar para eventuais posições executivas. Não se sentirão seguros em nos fazer propostas de emprego. Então, o que restará será nos cobrir de elogios: “Você é um avião”, “Você é superqualificado”, “Sua história é fantástica”, “O mercado sabe quem você é e saberá reconhecer o seu valor”. E sabe qual é o problema com essas afirmações? São verdadeiras, são pronunciadas assim porque o interlocutor quase sempre acredita mesmo nelas. Mas batem mal em nossos ouvidos, como álibis forjados para a porta que se fecha à nossa frente. Elogios que estragam nosso moral, ao invés de levantar o ânimo.

E qual é a solução? Mudar o modelo mental, reorientar o discurso e a ação para a busca de trabalho, e não de emprego. Permitir que toda a atitude seja de busca por clientes, e não por empregadores. Adotar uma fala e uma abordagem mais compatíveis com nosso contexto de vida e carreira, gerando menos dissonância para quem nos ouve.

Para tanto, o caminho mais indicado é se imaginar dono da sua própria consultoria, mesmo que fictícia. Supor que todos os empregos acabaram e que a única alternativa possível para sua continuidade da sua carreira passa pela consultoria. Um indivíduo como você, que esteve em tais e quais empresas e que construiu certo portfólio de realizações, estará preparado para apresentar um conjunto de soluções para determinados tipos de empresas, que, uma vez implementadas, satisfarão um elenco de necessidades de mercado. Este será seu novo posicionamento.

As necessidade de mercado que você conhece e sabe satisfazer tornam-se sua missão, seu chamado, o impacto deseja causar nas pessoas, nas empresas e na sociedade. Os tipos de empresas que possuem essas necessidades representam seu público-alvo, os segmentos onde pode focar sua transição. Suas realizações passadas ensejam sua prateleira de soluções e de serviços a serem ofertados, ou seja, sua proposta de valor. E sua história pessoal e profissional torna-se não um currículo, mas uma narrativa que dá lastro ao provedor de soluções que você é para aqueles tipos de organizações.

Resultado deste posicionamento: de tanto procurar trabalho, correrá risco de conseguir emprego! De tanto aproximar sua oferta das demandas do seu mercado-alvo, pode ser abordado para emprego. De tanto procurar clientes, pode conseguir empregadores.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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