A aventura de estar vivo

As histórias parecem fáceis quando vistas de trás para a frente. Depois de escutar algum relato e de testemunhar seu desfecho, a sensação é sempre a de “é claro, é óbvio, só podia ser assim mesmo”. Sob este aspecto somos todos engenheiros de obra pronta. A mudança em nosso modo de pensar por vezes passa por caminho nem sempre curtos nem tampouco óbvios. Como diz Nilton Bonder, em A alma imoral, é a escolha muitas vezes enseja um “longo caminho curto”.

Em meio às mudanças, quando olhamos para trás temos a sensação de que “não foi tão difícil assim”. Todavia, quando pesamos tudo o que enfrentamos percebemos o custo para nossas emoções, relações e para o nosso bolso.

O que não é bom escondemos no “porão”

Tudo fica mais difícil quando não compreendemos como as crenças impactam o que fazemos e falamos, assim como o que deixamos de falar e de fazer. Porém, antes de avaliar como as crenças interferem para o bem e para o mal nas transições de vida e de carreira, vamos primeiro tratar do “porão interno”.

Boa parte do nosso comportamento como adultos tem origem em situações vividas na infância. Algumas situações geraram prazer, alegria, sensações de bem-estar, conforto, proteção e segurança. Quando crianças não racionalizamos nada disso. Apenas sentimos e acreditamos nas coisas como são e como ocorrem. Não paramos para pensar de modo racional no papel de pai e mãe em nossa vida e não as relacionamos conscientemente às emoções que experimentamos. O mundo é bom, e não importa a explicação de como ou por quê.

Porém, nem tudo são flores na infância. Experimentamos situações ruins de desprazer, desconforto, medo, dor, insegurança, abandono, rejeição, e do mesmo modo não paramos para compreendê-las. Por exemplo, uma criança filha de pai explosivo que testemunha a agressão paterna contra sua mãe sentirá angústia, medo e toda a sorte de desconfortos psicológicos e físicos em decorrência da horrorosa experiência. Mas na tenra infância ela não pára e avalia as razões para o comportamento paterno e não as associa à agressão desferida. A situação ocorre, a criança a testemunha, sofre todas as emoções ruins derivadas e depois será outro dia. É bem possível vermos esta mesma criança no dia seguinte alegremente com seus brinquedos ou mesmo abraçando e beijando pai e mãe. Por que reagimos assim? Porque para sobreviver o remédio é enfiar tudo para dentro do nosso porão emocional e tocar a vida adiante. Construímos esse comportamento condicionado desde pequenos.

Tudo o que de bom nos acontece na infância produz resultados diretos no crescimento e desenvolvimento. Ganhamos massa muscular, altura, peso, auto-confiança, sociabilidade, instrução formal e capacidade para amar e ser amado. No entanto, tudo o que nos acontece de ruim será trancado em nosso porão interno. Como não compreendemos o que testemunhamos, a melhor medida será trancar tudo isso nesse porão emocional. Inúmeras escadas abaixo levam a ele, um depósito repleto de experiências e sentimentos que juntos criam aquilo que chamamos de “sistema de crenças”. São situações que guardamos no campo mais inconsciente da mente. Não as entendíamos quando pequenos e, com o passar do tempo, a chance de entendê-las diminui ainda mais. Suas cores, formas, cheiros e contornos perdem visibilidade e um mínimo de coerência. Então, tudo isso adormece e nunca mais impacta o que somos e o que fazemos, certo? Errado! Muito errado!

O desafio de despertar

Se por um lado a compreensão sobre tais experiências e emoções é pouca ou nenhuma na infância, quando adultos será ainda mais difícil racionalizá-las. Elas ainda estarão todas lá, empoeiradas, porém intactas. E o que é pior: assumindo muitas vezes o controle sobre nossas ações e omissões. Algumas circunstâncias que vivemos no presente despertam aquelas emoções escondidas no porão da consciência. E quando acordadas, elas tentarão nos convencer de que estamos revivendo – inconscientemente, é claro – as mesmas situações que as originaram. Então não há outra alternativa senão reagir do mesmo modo como reagimos diante da situação original. De modo inconsciente, construímos um conjunto de associações que generalizam situações e determinam padrões para nossos comportamentos. Ainda que as situações sejam apenas semelhantes e não idênticas, mesmo assim acreditaremos que a forma de reagir deve ser igual àquela como reagimos na situação original. Totalmente inconscientes dessa mecânica, permitimos que tais emoções assumam o comando.

Isso é mesmo assustador, não acha? Emoções do passado, inconscientes e cheias de poeira do nosso mais profundo porão, assumindo as rédeas sobre o comportamento no presente.

O que fica guardado no porão emocional está mais vivo do que pensamos. Em decorrência do que lá guardamos são geradas emoções como ódio, culpa, medo, vergonha, tristeza e ressentimento. Sentimos ódio do pai, da mãe e dos irmãos pelo que nos acontece de ruim e pelo tanto que não nos amam do jeito e com a intensidade que demandamos. Há momentos em que imaginamos e lhes desejamos mal. Sentimos culpa por isso e medo de tais sentimentos, medo das perdas que vivemos todos os dias na vida. Perdemos carinho, segurança, atenção, proteção, alegria e confiança em nós mesmos. Perdemos a inocência ao descobrir que o mundo não é bom como parecia. E sentir medo não é bem vindo, como aprendemos desde cedo. Tudo isso nos deixa com muita vergonha. Sentimos vergonha do ódio, da culpa e do medo que nos invade. Vergonha dos nossos pais, de como são, de como pensam e de como agem. Vergonha de sentir vergonha disso tudo. Mas, como sobreviver e vencer neste mundo carregando na mochila tantos sentimentos embaraçosos? Como ser feliz e amado com tais sentimentos negativos? Só tem um jeito: criando e usando máscaras.

Não posso ser descoberto

O que acontecerá com o amor e o afeto de todos em relação a mim se descobrirem meu ódio, minha culpa, meu medo e minha vergonha? Não, de jeito nenhum. Ninguém pode me ver assim. Ninguém pode descobrir o que escondo dentro de mim. Preciso ser bonzinho, amigo, respeitoso, justo, equilibrado, elegante, bonito, educado, bem-sucedido, cortês, estudioso, obediente, bom coração, solidário, leal, fiel, competente, eficiente, responsável, camarada e caridoso, com tudo e com todos. As máscaras que usaremos servirão exatamente para criar em todos com quem relacionamos essas percepções, de que somos perfeitos e de que merecemos ser amados e admirados de maneira incondicional.

Isso é horrível e maravilhosamente humano. Há um livro, chamado Não temas o mal, que facilita a compreensão dessa dinâmica silenciosa que, uma vez trazida à luz, permite ampliar o entendimento sobre quem somos e sobre o que fazemos. Todavia, mergulhados na inconsciência sobre o que está guardado nesse porão emocional, ficamos entregues às atitudes que adotamos de modo recorrente, criando padrões de comportamento vinculados às nossas crenças. E o que é mais cruel ainda do que isso?

Sentimento de fraude

No íntimo, todos nos sentimos uma fraude, um blefe. Somos uma mentira, viciados e dependentes das máscaras que inventamos para que ninguém descubra quem somos de verdade e o que sentimos lá no fundo. Graças a Deus que ninguém ouve nossos pensamentos, certo? Estaríamos perdidos! Seríamos descobertos e desmascarados! Nunca, jamais! Precisamos persistir na farsa.

Mas viver na farsa é errado. Mentir é errado. Herdamos esta certeza também na infância. Continuar a fraude é o pior caminho. Ao persistir no erro, merecemos apenas uma alternativa: a punição. Porém, ao invés de sermos punidos pelos outros – que para nossa sobrevivência precisam acreditar na “verdade” das nossas máscaras – optamos pela auto-punição. É preciso dar uma lição a esse farsante. Como?

Nosso mecanismo de auto-punição é sofisticado, criativo e invariavelmente sutil. É por essa sutileza, somada a toda a inconsciência na qual estamos mergulhados, que se torna mais difícil enxergar e compreender os mecanismos de autossabotagem a que nos dedicamos com afinco e competência. Quantas vezes você já viu indivíduos repetindo comportamentos autodestrutivos sem compreender como e por quê? “Mas será que ele não percebe o que está fazendo consigo? Será que não vê que é o mais prejudicado com essa atitude?”. Sim, ele sabe disso, mas “sabe” apenas inconscientemente. A autossabotagem é sutil e difícil de ser percebida pelo próprio indivíduo. Ele está preso – assim como você e eu – à sistemática da auto-punição.

Crenças em ação

Esse processo todo está relacionado às chamadas crenças restritivas (ou limitantes). Tais crenças nos fazem acreditar em duas “verdades”: aquela do “eu não posso e não sou capaz”, e a segunda do “eu não mereço”. Pense em como esses pensamentos fazem todo sentido para o indivíduo se entregar silenciosamente à autopunição. A crença do “eu não posso e não sou capaz” nos impede de avançar, mesmo quando estamos próximos da linha de chegada. Estamos em uma corrida e perto da vitória. Todavia, quanto mais próximos da chegada, mais acreditamos na ideia de não conseguir, de não sermos capazes, de não estarmos preparados por completo. Nosso fim será o fracasso, o insucesso, não apenas uma vez, mas várias, em um padrão de falhas e desacertos que nos impingem prejuízos concretos (como os econômicos e financeiros), além daqueles mais subjetivos e difusos (como a perda do status e da autoestima). Essa sequência de fracassos tem sua utilidade: a auto-punição, em razão da fraude que somos e que ainda persistimos em ser. Mas felizmente ninguém ainda percebeu! E antes a punição a si mesmo do que o castigo imposto pelos demais.

O trabalho fica dobrado e, por isso, mais difícil: preciso me punir no mesmo instante em que todo mundo deve ainda acreditar nas minhas máscaras. É necessário, dessa forma, reforçar as máscaras para não possibilitar qualquer evidência do que escondemos atrás delas. Não podemos ficar vulneráveis. O bonzinho precisa parecer mais bonzinho, o amigão camarada precisa parecer ainda mais amigão camarada, o justo e correto ainda mais justo e correto, e assim por diante.

A outra crença restritiva é a aquela associada ao “eu não mereço”. Quando a primeira crença do “eu não posso e não sou capaz” falha e por esse “descuido” atravessamos a linha de chegada, acreditarmos que a vitória não é merecida. “Isso não vai durar muito”, ou “Não mereço que isso dure por muito tempo”, “Sei que pelo meu demérito isso logo acabará”. Como você, uma enorme fraude, pode ser acalentado com todo esse sucesso, com essa vitória? Que absurdo… É o cúmulo da injustiça! Quantas vezes, diante de algum sucesso você não experimentou o medo de que a situação seja efêmera, passageira e de que acabará em pouco tempo? Certamente algumas vezes. É a crença cruel do não merecimento.

A crença na impotência

Peter Senge, em seu livro A quinta disciplina, cita os trabalhos de Robert Fritz sobre o desenvolvimento de capacidades criativas. Fritz concluiu que existe dentro de praticamente todos nós uma crença dominante de que não conseguiremos realizar nossos desejos. Para ele, tal crença tem origem no processo de crescimento. Completa Fritz:

“Como as crianças, nós aprendemos quais são as nossas limitações. As crianças aprendem limitações essenciais à sua sobrevivência. Muitas vezes, porém, tal aprendizado é generalizado. Dizem-nos constantemente que não podemos ter ou fazer determinadas coisas e, por isso, às vezes acabamos assumindo que somos incapazes de ter o que queremos.”

Segundo Peter Senge, a maioria de nós tem uma entre duas crenças contraditórias que limitam a capacidade de criar o que de fato desejamos. A mais comum é a crença na impotência – a incapacidade de trazer à vida todas as coisas com as quais nos importamos. A outra concentra-se no sentimento de demérito – a sensação de que não merecemos ter e criar o que realmente desejamos. Segundo Senge:

“Muitas pessoas altamente bem-sucedidas continuam sentindo uma profunda impotência, normalmente não verbalizada, em áreas críticas de suas vidas – como nos relacionamentos pessoais e familiares, ou em sua capacidade de obter um senso de paz interior e satisfação espiritual.”

Para Senge, só teremos condições de alterar este sistema de crenças se adotarmos a disciplina do “domínio pessoal”, ou seja, a disciplina “do crescimento e aprendizado pessoais”, da revelação e da abertura espiritual, de encarar a vida como um trabalho de tensão criativa, vivendo-a na perspectiva da criação, e não da reação. Domínio pessoal pressupõe primeiro esclarecer o que é importante na vida. Como diz Senge, “muitas vezes passamos tanto tempo tentando resolver os problemas ao longo do caminho que esquecemos os motivos pelos quais estamos naquele caminho”. O resultado é que temos uma visão vaga e imprecisa do que realmente é importante para nós.

A transformação possível

Como vimos, as crenças são erguidas a partir do que se esconde em nosso porão interno. São pensamentos enraizados e profundos formados pela experiência emocional vivida e pela interação com o mundo e com as pessoas ao redor. Algumas vezes são imagens distorcidas da realidade, porém manifestadas por seu inconsciente como verdade absoluta. O caminho do domínio pessoal, do autoconhecimento, da clareza de visão de futuro e da definição do seu propósito de vida pode deixá-lo mais livre das crenças restritivas e, assim, possibilitar sua transformação e evolução.

Em Sabedoria, as palavras de Rubem Alves cabem bem aqui:

“É preciso ter olho novo para ver as coisas velhas de maneira diferente. As memórias não podem ser esquecidas. O passado, uma vez vivido, entra em nosso sangue, molda o nosso corpo, escolhe as nossas palavras. É inútil renegá-lo. As cicatrizes e os sorrisos permanecem. Os olhos dos que sofreram e amaram serão para sempre diferentes de todos os outros. Resta-nos fazer as pazes com aquilo que já fomos, reconhecendo que de um jeito ou de outro aquilo que já fomos continua vivo em nós, seja sob a forma de demônios que queremos exorcizar e esquecer – sem sucesso – seja sob a forma de memórias que preservamos com saudade e que nos fazem sorrir com esperança.”

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

(artigo baseado no livro “Todo novo começo surge de um antigo começo”, de minha autoria, editado pela Évora)

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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