“Liderar significa dirigir e sentir firmemente o chão de suas próprias opiniões e de sua própria postura.” (Alexander Lowen)

Tirar os sapatos e sentir o chão novamente

Nilton Bonder, em seu livro Tirando os sapatos, trata o tema das crenças de modo original. Associa os sapatos que calçamos aos fundamentos construídos ao longo dos anos e que moldam nossa forma de pensar e agir. Ficamos habituados a padrões e condutas que se tornam nosso “sapato”. Os sapatos tornam-se proteção indispensável entre o indivíduo e seu meio e se ajustam com o tempo à forma dos pés. Por outro lado, o chão representa “o pavimento da vida, e ele não se ajusta à nossa pisada”. Desse modo, “de tanto em tanto, temos que retirar o sapato e tocar o solo com a planta do pé”, completa Bonder, ainda que nesse instante sintamos superfícies irregulares e desconfortáveis. Isso perfaz um necessário gesto de libertação e expansão em relação aos nossos fundamentos mais arraigados. “Sentir o chão é reencontrar a vida”, diz o autor. Adaptados aos pés, os sapatos nos trazem a segurança para caminhar. Mas é do chão que vem o alicerce e o embasamento para caminharmos com firmeza.

Nossas ortodoxias

Não acredito em processo de autoconhecimento sem descermos as escadas que nos conduzem ao nosso porão emocional, aos nossos fundamentos mais enraizados, ao nosso sistema de crenças mais cristalizado. Não acredito em processo de transição e transformação sem tirarmos os sapatos, sem que sintamos o desconforto de pisar um chão ora gelado, ora torrencialmente quente, fruto de percepções novas sobre nossa história de vida, sobre a maneira de encarar as pessoas, os desafios e o mundo à nossa volta. Foi assim comigo, e tem sido assim com os indivíduos que experimentaram importantes mudanças em sua vida. E isso está longe de ser fácil e agradável.

Estou entre aqueles que encaram autoconhecimento com base na ideia de que o caminho para o melhor na vida passa necessariamente por olharmos o pior, ou seja, aquilo de ruim que guardamos no porão. “Quando simplesmente nos voltamos para fora, vemos todos esses pequenos problemas, aqui e ali. Mas, quando olhamos para dentro, vemos que somos a fonte deles todos”, disse Campbell em O poder do mito. Por isso digo que é preciso descer as escadas que levam até nosso porão. A primeira decisão difícil é esta, a de descer. A outra é mais desafiadora ainda: a de abrir a porta do porão.

Ninguém faz uma importante travessia sozinho

Testemunho próprio: é muito duro tomar tais decisões sozinho, sem ajuda especializada de terapeutas e conselheiros. A primeira grande decisão é a de desejar esse processo como um todo, de querer descer e verificar o que há guardado nesse porão. Isso até podemos decidir sozinhos. Mas ser acompanhado em todo esse percurso é fundamental, por algumas razões. Primeiro, porque há técnicas terapêuticas de todos os tipos que beneficiam o contexto em torno do qual você mergulha em si mesmo e em sua história de vida. Segundo, porque ao descer as escadas e abrir a porta desse porão você certamente não ficará bem. Aquele lugar é escuro e cheio de pó. É impossível não se incomodar com esta experiência, razão pela qual é preciso ter apoio.

Você entrará em contato com todo o conteúdo por trás das máscaras: seus desejos menos nobres, ódios mais longínquos, seus sentimentos de perda e abandono, suas culpas, seus medos, vergonhas e ressentimentos. Enfim, terá contato com tudo aquilo que vivenciou e guardou, sem compreender as emoções ali depositadas, sem racionalizar e tratá-las. São emoções guardadas em forma bruta e que operam sob o manto da nossa inconsciência, longe de estarem adormecidas. Entrará em contato, enfim, com o seu “mal”.

Nosso lado mais sombrio

O primeiro contato que terá com o conteúdo desse porão gerará repulsa e negação. Você negará o que viu e sentiu, negará o processo como um todo e questionará a competência do terapeuta ou do conselheiro que estiver com você. Este é um ponto crucial, em que alguns param e não prosseguem, enquanto outros avançam. E como prosseguir?

O processo pressupõe abrir e fechar a porta do porão várias vezes. Você abre a porta na primeira vez e olha para dentro com o rosto enfiado em uma pequena fresta. Afasta-se para voltar depois, mais uma vez, quando abrirá um pouco mais a porta e olhará o conteúdo ali dentro. E o processo segue assim, abrindo cada vez mais a porta e acendendo a luz internamente. Você abre cada vez mais a porta e consegue olhar o que lá existe cada vez melhor, em uma sucessão de aproximações e recuos. E quais os resultados esperados?

Primeiro, há sempre aquela dúvida de o que fazer com tudo aquilo de ruim que se viu e sentiu. Você não terá nada de concreto a fazer, a não ser ver e sentir. O significado disso será deixar a porta aberta para afastar aos poucos a poeira guardada com o tempo. O significado disso será a luz acesa no porão para ampliar sua consciência sobre si mesmo, sobre suas ações e omissões, sobre como age no contexto de cada situação vivida e sobre as crenças restritivas e alavancadoras que dão contorno ao modo como age e pensa. Essa consciência maior criará condições para transformar sua realidade.

Ao contrário do que pensamos, o objetivo deste processo não será extirpar o mal que descobriu em você, tudo aquilo de ruim por trás das máscaras, escondido da sua própria visão de mundo. O objetivo será integrar tudo isso a você, à sua história. Passo importante será dado quando for capaz de olhar para tudo aquilo e dizer “Isso também sou eu, isso também é meu e me pertence, eu sou esse todo indivisível”. Você amplia a consciência no mesmo momento em que integra, aceita e acolhe todas as partes da sua história e todas as partes de você mesmo, até aquelas menos confessáveis. Você se torna um “eu único”, consciente de como as crenças operam em suas ações e decisões.

A integração da sombra

Em termos mitológicos, Joseph Campbell usava para essa mesma ideia a analogia de “Jonas na barriga da baleia”. A barriga era o símbolo do lugar escuro, onde acontece a digestão que cria uma nova energia. É um exemplo de tema mítico praticamente universal: o herói engolido por um peixe que volta depois transformado. É uma descida às trevas. “A baleia representa o poder de vida contido no inconsciente. Metaforicamente, a água é o inconsciente, e a criatura na água é a vida ou energia do inconsciente, que dominou a personalidade consciente e precisa ser desempossada, superada e controlada”, disse Campbell. O tema aqui – recorrente como todos os demais arquétipos – é do indivíduo lidando com sua energia inconsciente que não é capaz de controlar, precisando então passar por provações e revelações de “uma jornada de terror no mar noturno, enquanto aprende a lidar com esse poder sombrio, para finalmente emergir, rumo a uma nova vida”.

Já parou para pensar que tudo o que diz e faz está relacionado a crenças que começaram a ser construídas ainda em sua infância? Já parou para avaliar que enquanto estamos “sonâmbulos” elas assumem o comando dos comportamentos? Já parou para analisar como podem ter influenciado até hoje as decisões de vida e de carreira que tomou? Como foram decisivas para seus relacionamentos, sucessos e fracassos? Por isso é tão importante o encontro com sua sombra.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

(artigo baseado no livro “Todo novo começo surge de um antigo começo”, de minha autoria, editado pela Évora)

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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