Ler Sincronicidade, de Joseph Jaworski, chamou minha atenção para a quantidade de citações e referências feitas pelo autor a outro escritor, já bem citado neste livro: Joseph Campbell. Decidi que devia conhecê-lo mais de perto. Resultado: não consegui parar de lê-lo! Em um curto espaço de tempo havia devorado O poder do mito, O herói de mil faces e As máscaras de Deus, que me encheram de inspiração, sobretudo para os temas de autoconhecimento e transições de vida e carreira.

Campbell foi um dos maiores especialistas em mitologia do século XX, encarando-a como forma de compreender os grandes temas que dominam o espírito humano quanto às suas aspirações, poderes, tormentas e sabedoria. A mitologia seria capaz de revelar os perigos do sombrio caminho da jornada interior, que leva da tragédia à comédia – ou da destruição à alegria de uma vida vitoriosa. Este deveria ser um objetivo geral de todos os indivíduos: viver uma existência mitológica. Segundo ele, as lendas e os mitos seguem um padrão arquetípico, um certo script universal que denominou “a jornada do herói”, com três etapas: a partida, a iniciação e o retorno.

A jornada é uma passagem para dentro – para as camadas profundas em que superamos resistências obscuras e onde forças esquecidas e perdidas há tempos são revitalizadas “a fim de que se tornem disponíveis para a tarefa de transfiguração do mundo”, de acordo com Campbell. O herói simboliza uma imagem divina, criadora e libertadora que se encontra escondida dentro de nós, esperando ser conhecida e transformada.

A partida é disparada por um chamado – ou “chamado da aventura” –, isto é, algum acontecimento que nos marca e desperta. “O horizonte familiar da vida foi ultrapassado; os velhos conceitos, ideais e padrões emocionais, já não são adequados; está próximo o momento da passagem por um limiar”. A ideia se assemelha aos chamados “eventos de descongelamento”, na expressão de Herminia Ibarra, em seu livro Identidade de carreira, no sentido de experiências – das mais simples às mais traumáticas – que colocam repentinamente o indivíduo na sua própria presença. São contextos que nos “descongelam” e nos “libertam”, deixando-nos prontos para agir. São situações que desafiam a visão que temos de nós mesmos, nos tiram do “piloto automático” e criam um divisor de águas em nossa história. Perdas de diferentes naturezas na vida pessoal ou relacionadas à carreira, assim como eventos felizes ligados a nascimentos, conquistas, conclusões de projetos, viagens ou celebrações podem disparar sentimentos, pensamentos e comportamentos que nos fazem rever prioridades e escolhas. Ou seja, são eventos capazes de nos “descongelar”.

Na mesma direção, o chamado, outra etapa da jornada, enseja eventos que alteram nosso centro de gravidade. Podem ocorrer por vontade própria do herói, ou começar por um mero erro, coincidência ou acaso, “quando algum fenômeno passageiro atrai seu olhar errante e o leva para longe dos caminhos comuns do homem”, na explicação de Campbell.

Lendas e mitos nos ensinam sobre os riscos, perigos e castigos quanto à recusa ao chamado, o que pode resultar em contexto ainda mais providencial de revelação e autoconsciência do herói. Ao responder ao chamado e prosseguir corajosamente em sua jornada, conforme se desenrolam as consequências dessa decisão, o herói descobre as forças do inconsciente do seu lado. Em um primeiro momento eram amedrontadoras, até que, ao conhecê-las, passam a atuar a seu favor. É quando recebe todo tipo de “auxílio sobrenatural” em sua partida, não raro com apoio dos fenômenos da natureza e de figuras protetoras, divindades e guias especialmente preparados para suportá-los nos desafios que se apresentam.

Com a partida o herói enfrentará diferentes passagens com seus respectivos guardiões, inscritas em circunstâncias de ameaças, seduções, olhares suspeitos, libidinosos, provocadores e investigativos. Ao enfrentar tais riscos, que podem desviá-lo de sua jornada, o herói faz a primeira passagem do limiar que separa o conhecido do desconhecido.

Passar pelo primeiro portal e enfrentar seus guardiões enseja perigo e risco. No entanto, todos que persistem com coragem testemunham os perigos desaparecerem aos poucos. É comum a várias lendas que tenebrosos ogros e outras figuras horrorosas sejam dominadas pelo herói, transformando-as em ajudantes e apoiadores em sua missão. A passagem por esse limiar já representa uma primeira transformação do herói, que entra em contato com suas forças interiores além dos sentidos externos do ego, descobrindo em si capacidades antes não dispo- níveis para transformar o medo em coragem para prosseguir. Uma parte do seu ego morre para um ser que se renova, um herói que se amplia para dentro de si mesmo, para renascer mais forte e presente. Símbolo dessa trajetória é o herói engolido por monstros, baleias, dragões, grandes buracos, cavernas ou escuras florestas. Essa ideia de morte e autoaniquilação para um posterior renascimento é tema mítico frequente. O herói deixa de existir para o que foi até então, para sair renascido e mais forte para o que deseja ser.

Na sequência da partida segue-se a iniciação. Depois da travessia do limiar, o herói enfrentará novas provas. Não se entra no “jardim da bem-aventurança” sem antes enfrentar provações. Nessa fase é comum sentir a proteção vinda de um poder benigno, de algum modo presente em toda parte e ao seu lado, que o sustenta em sua passagem. O herói é posto diante das suas ambiguidades e polaridades e, ao descobri-las, precisa transformá-las em forças, ao invés de fraquezas. Matará dragões e ultrapassará surpreendentes barreiras que restringem seu avanço, e começará a acumular algumas vitórias. Seus lados bons e maus começam a se unir, assim como seus aspectos masculinos (de força, busca de sentido, propósito e significado) se unem aos femininos (ligados à matéria, à experiência de estar vivo, aos sentidos e ao amor). Espera-se a partir daí que o herói olhe seus opostos com equanimidade. Sua mente abre-se a uma presença maior e universal, bem como à natureza do seu ser. Por essa razão, é comum nessa fase da jornada do herói (que pode obviamente ser homem ou mulher) encontrar motivos maternos e femininos, ilustrados pelo encontro com a mãe, com a deusa ou com outros aspectos que representam a totalidade do universo, o amor, a harmonização entre os pares de opostos, a fluidez da vida, as emoções, a ponte entre o existir e a existência, a libertação, a sensualidade, a beleza, a criação e a potencialidade de estar vivo.

Camadas de autoconhecimento são vencidas e o herói amplia sua consciência, força e plenitude. O herói entra cada vez mais em contato com sua real natureza, com quem realmente é, com o que há de bom e ruim nessa autorrevelação. Em O herói de mil faces, Campbell descreve esse aspecto de modo antológico:

“Nossas concepções conscientes a respeito do que a vida deve ser raramente correspondem àquilo que a vida de fato é. Em geral recusamos a admitir que exista, dentro de nós ou dos nossos amigos, de forma plena, a impulsionadora, autoprotetora, malcheirosa, carnívora e voluptuosa febre que constitui a própria natureza da célula orgânica. Em vez disso, costumamos perfumar, lavar e reinterpretar, imaginando enquanto isso que as moscas e todos os cabelos que estão na sopa são erros de alguma desagradável outra pessoa.”

O encontro com o pai também ocorre nessa etapa da iniciação e produz no herói uma visão mais madura, realista e equilibrada do mundo. Esse é, simbolicamente, o entrar em sintonia com o pai, confiar na figura paterna, o que guarda importante significado com a própria confiança no fluxo da vida, no mundo da ação adulta, em persistir na jornada e em seu propósito, suportando as possíveis crises pelo caminho. O pai torna-se símbolo da futura tarefa do herói a ser empreendida, agora mais livre dos temores e mais preparado para a mudança, na medida em que foi desafiado e posto à prova no sentido de vencer suas limitações pessoais e alcançar esferas mais elevadas de percepção sobre si, sobre os outros e sobre o mundo ao seu redor.

A última etapa é a do retorno do herói com seu troféu e sua transformação para trazer os símbolos da sabedoria conquistada – um anel ou um elixir – para renovação da sua família, comunidade, nação e planeta. Lendas e mitos retratam castigos a que são submetidos os que se recusam ao retorno. O herói precisa voltar e trazer a bênção obtida, que idealmente restaura o mundo. Deve retornar do abismo para o plano da vida, “para servir na qualidade de transformador humano”, escreveu Campbell.

Não tenho dúvidas do quanto os mitos e as lendas podem nos inspirar, sobretudo quando nos encontramos em mudanças importantes na vida. O simbolismo da mitologia reveste-se dos desafios psicológicos que enfrentamos, inclusive nos momentos cruciais da nossa biografia. Por meio dos mitos encontramos uma ilustração simbólica aos nossos desejos, temores e tensões inconscientes, presentes em nossos comportamentos. Na medida em que as lendas mitológicas guardam entre si um padrão, como na jornada do herói, a sensação é de que seguimos as mesmas trilhas que outros heróis já percorreram. É uma das formas mais inspiradoras de nos sentirmos parte de um todo maior e universal. Os padrões constantes nas revelações mitológicas estimulam a compreensão mais profunda das forças que dão forma ao destino humano. Atuam como metáforas da realidade e colocam em funcionamento as energias vitais da mente e do espírito. Servem, desse modo, como poderosa linguagem universal que comunica uma sabedoria eloquente capaz de dirigir uma mensagem a cada um de nós, em cada contexto desafiador dentro da experiência de estar vivo.

Os símbolos mitológicos são, portanto, “metáforas reveladoras do destino do homem, bem como de sua esperança, fé e obscuro mistério”, nas palavras de Campbell.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

(artigo baseado no livro “Todo novo começo surge de um antigo começo”, de minha autoria, editado pela Évora)

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

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