Quando tiramos o outro do seu lugar

Miragem lembra ilusão, remete a imagens que não são reais. E é disso que precisamos falar neste capítulo: das situações inconscientes que criamos – algumas com alto nível de sofisticação – recheadas de autoengano e desgaste.

Nos relacionamentos interpessoais, as miragens têm 2 objetivos ocultos para o próprio indivíduo que as cria:

1.    Deslocar o outro do seu papel verdadeiro.

2.    Tirar alguma vantagem desta situação.

Claro que não o fazemos de modo consciente. Quanto mais baixo o nível de autossabedoria, maior será a inclinação para as miragens. Vamos entender isso em partes.

Primeiro: como deslocamos o outro do seu papel verdadeiro? Colocando-o em 4 possíveis lugares:

1.    Idealização: no lugar de um ser ideal

2.    Espelhamento: no lugar de mim mesmo, do meu eu idealizado

3.    Projeção: no lugar de autoridade destrutiva, como sombra do meu pai ou da minha mãe;

4.    Transposição: no lugar de autoridade saudável, como a luz do meu pai ou da minha mãe.

Idealização

Há uma diferença tênue – e muito significativa – em olhar para alguém com admiração madura, desperta e consciente, ao invés de elevar o outro à condição um semideus, uma encarnação mítica do ser humano perfeito, sem faltas ou falhas. É disso que tratamos com a Idealização. Alguém que – muito além da admiração – merece ser “venerado”, amado e adorado como sagrado.

Exclua desta miragem a relação de fé que possamos ter com Cristo, Buda, santos, padroeiros ou quaisquer outras referências religiosas. A fé é um sentimento mais saudável e intencional do que a Idealização. Erguemos nossa fé com base em crenças herdadas espiritual e culturalmente, em torno de uma escolha clara: eu quero acreditar nisto ou naquilo. Não preciso ver para acreditar: eu acredito, por isso posso “ver”.

Na Idealização, por outro lado, há um entorpecimento da escolha. Sequer admito ter escolhido “idealizar” alguém. Aquela pessoa é mesmo a personificação de certos atributos heroicos. Para o idealizador, cego é quem não enxerga o mesmo que ele vê de incomum e singular neste alguém. Reverenciar a Cristo não é em si uma idealização, mas é fé. Idealização é tratar um ser humano como “Deus”.

O aspecto assustador da Idealização é o quanto ela corrói o protagonismo do idealizador, que faz ou deixa de fazer algo em razão do culto embriagado à personalidade idealizada. Fala ou deixa de falar sobre algo, quase em um atrelamento da sua identidade à do outro. Não se pensa mais em crenças e valores próprios: em seu lugar, pergunta-se como aquele ser ideal pensaria, sentiria e agiria. Ao se idealizar, o idealizador mergulha seu Eu em perigoso nível de insignificância e risco. Age, dessa forma, em oposição a tudo que não convém ao ego: ameaçar sua sobrevivência, enfraquecer e rebaixá-lo a um ponto mínimo de relevância. Um quadro de ameaça ao idealizador, em que o ruim torna-se pior. Não raro, o idealizador volta-se com ira para aquele que antes foi uma divindade: ao menor sinal de perceber a “fraude” em que mergulhou, sente que algo em si começa a morrer, ou seja, ele mesmo.

Isto tudo não deixa de ser uma desonestidade com o outro, o idealizado, deslocado do seu próprio lugar para assumir um altar endeusado. Ocorre, todavia, que a maioria dos relacionamentos é tecida em meio à falta completa de autoconhecimento de ambos, idealizador e idealizado. Isto abre espaço para uma pergunta legítima: até que ponto chega a inocência do idealizado? Quanto da sua atitude alimentou – sutil ou ostensivamente – a Idealização? Em que medida fez de tudo para se emaranhar na própria miragem do outro? Quando o assunto são as relações humanas, tudo é possível.

Assim como as demais miragens, o fim provável da Idealização é a decepção. Uma palavra, um gesto ou a combinação de ambos derrubam o mito, despersonalizam aquele antes visto como herói ou heroína. Sua aparência agora parece irritantemente ordinária, demasiado humana e sem mais despertar sedução. O sofrimento acompanha este desapontamento, em geral com uma narrativa de traição. O idealizador foi traído. A vontade de agredir o idealizado ressurge, dessa vez em nome desta “punhalada”. Para sair da autodestruição, o idealizador precisa encarar o desafio de perceber que ele próprio encarnou traidor e traído.

Se a decepção não vier, a notícia pode ser pior ainda: um entorpecimento sem fim, em busca de mais motivos para idealizar, na direção do que visivelmente assumirá contornos de fanatismo e patologia. São situações em que o idealizador pode agir sem freios: perseguir física ou virtualmente a figura idealizada, por vezes de modo compulsivo e ameaçador.

São casos assim que nos reforçam o mantra: consciência transforma a realidade. Reconhecer a miragem criada, bem como os pensamentos, sentimentos e comportamentos oriundos dela, possibilitará a restauração do ego e o retorno da forma saudável de se relacionar consigo, com o outro e com o mundo ao redor. Será preciso trazer a Idealização à superfície de olhos mais conscientes, compreender a que propósitos serviu, que significados emocionais produziu e o que se aprendeu com tudo isso. Falar, falar e falar a respeito e ampliar sabedoria para o relacionamento consigo, com o outro e com o mundo à sua volta.

Espelhamento

Diferente da Idealização, no Espelhamento amamos no outro a imagem idealizada de nós mesmos. Amamos aquele indivíduo porque ele nos lembra nossa melhor parte. O outro deixa de ser ele mesmo para ser Eu.

Como em toda miragem, podemos admitir uma responsabilidade compartilhada, nem sempre em iguais proporções. Há algo no outro que alimenta a miragem, conscientemente ou não. Mas vamos nos focar no sujeito ativo do Espelhamento.

Se o outro foi elevado à condição de “eu mesmo”, minha expectativa é alta: preciso ser representado à altura. Nem pensar em decepcionar a mim ou aos demais. Nosso convívio torna-se crescentemente prazeroso: quanto mais o escuto, mais encontro seus pontos de integridade, dignidade, genialidade. Toda a percepção se torna familiar: o espelhador diz “conheço bem esta forma de pensar, sentir e agir”. Tudo vem em dobro: vejo algo no outro que sinto em mim, no mesmo instante. Somos ambos marcados por virtudes admiráveis, nem sempre reconhecidas por este mundo que, a rigor, pouco nos merece. No fundo, sabemos que somos especiais, cercados por pessoas e rotinas cheias de mediocridade. “Ah, como este mundo nos necessita, com tão pouco mérito em nos ter”.

Como na Idealização e em outras miragens, também no Espelhamento não se pode esperar comportamento normal a partir de uma relação anormal. O espelhador desejará proximidade crescente com o espelhado, basicamente com o intuito de auferir prazer ao confirmar que o outro continua espelhando sua face mais apreciativa. Experimenta alívio ao testemunhar que o reflexo da imagem continua ali, ainda a proporcionar satisfação e veneração a si mesmo.

O Espelhamento guarda outra diferença com a Idealização, no tocante ao equilíbrio entre quanto de amor se dá ao outro e a si mesmo. Ao se idealizar alguém, dá-se a ele a maior parte do amor, que se torna insuficiente para o idealizador. Baixa autoestima e negligência consigo são decorrências óbvias. No Espelhamento, espelhador e espelhado são a “mesma pessoa”, embora indivíduos diferentes. Mas sob efeito da miragem, o amor que se dá ao outro tem destinatário certo: o si mesmo. Assim, o amor a si mesmo é maior do que aquele que sobra para entregar a outras pessoas. O efeito, quase sempre, é de narcisismo, egocentrismo e distanciamento social.

Note a diferença que há entre uma relação saudável, em que duas pessoas cultivam forte identidade de valores, visão de mundo e opiniões convergentes sobre temas vitais. Mas no Espelhamento, ao contrário de qualquer manifestação de saudável identificação, o que há é a busca de mim mesmo no outro, a missão “delegada” a alguém de me representar na melhor versão idealizada de mim mesmo.

Ao iniciar a miragem, o sujeito dispara, no mesmo instante, o começo de sua tragédia: o espelho quebrará, cedo ou tarde. A decepção virá com dor aguda: ele não sou eu, eu não sou ele, e nenhum de nós é digno daquela imagem revelada no reflexo apaixonante de traços antes especiais e belos. Se no lugar deste vácuo de frustração não aflorar um eu consciente e maduro, o distúrbio físico, mental e emocional trará à superfície a face de alguém destruído pela perda de uma imagem irreal, pela perda de algo que nunca foi de verdade. O comportamento será de alguém que mergulhará sem fim atrás de alguma coisa que nunca teve ou existiu. O ego, novamente, corre o risco de colapsar, e não enfrentará esta batalha sem ajuda.

Projeção

Além de deslocar o outro do seu papel, há em outras duas miragens o desejo inconsciente de reencenar personagens e situações do passado para que, dessa vez, algum desfecho melhor aconteça.

Projeção e Transposição são miragens que envolvem mais frequentemente cônjuges e figuras de autoridade formal, para as quais atribuímos papel de pai ou mãe. Parece complicado? Bem, devem existir poucas coisas mais complexas do que um ser humano. Vejamos.

Imagine a história de infância de certo indivíduo em que, alguma passagem, com pai ou mãe, tenha deixado marcas ruins, quem sabe até traumáticas. Ao viver aquela situação, inicia-se um diálogo interno, em que se pergunta: “quando vamos corrigir isto? Eu agora não posso, sou criança e com poucos recursos internos para dar conta disso. Mas esperem só até eu crescer…”.

Por “corrigir”, imagine um milhão de coisas. O que importa é entender o significado do pensamento e do sentimento que nascem: preciso encontrar um jeito de arrumar isto, conseguir apagar o que aconteceu, substituir o malefício por um benefício, auferir uma vantagem, apagar aquele erro, ser reconhecido e amado dessa vez, enfim, escrever em minha biografia um desfecho mais favorável do que aquele do passado. Mas para reencenar este episódio com algum final feliz, falta-me algo imprescindível: um representante, um “ator” a ser recrutado, alguém para atuar no papel do meu pai ou da minha mãe. Este é o mecanismo da Projeção.

A lógica inconsciente pressupõe usar alguém para uma finalidade que é oculta, tanto para o indivíduo que cria a Projeção, quanto para aquele que será escolhido para “ator”. A partir da situação negativa lá no passado, de imediato instala-se no indivíduo um “caça-talentos”, um buscador a prospectar quem poderá representar o necessário papel para a trama. A busca será por características que lembram a figura a ser projetada em seus aspectos mais negativos. Perseguem-se traços de comportamento negativo, em indivíduos que fazem comigo infelizmente o mesmo que meu pai (ou minha mãe) faziam comigo.

A primeira evidência de tais traços em alguém já será suficiente para nos atrair. De início, com alguma repulsa: um primeiro olhar de reprovação, um pré-julgamento da virtude escassa, ou o vazio completo de virtudes. São contextos em que “nosso santo não bate” de imediato com o santo do outro.

Supera-se esta primeira repulsa com um sentimento de estar diante de algo familiar, um mundo conhecido e, portanto, estranhamente convidativo. A construção de alguma intimidade com esta pessoa fará, cedo ou tarde, o gongo soar: é o aviso de que encontramos o ator que precisávamos. Encontramos a pessoa “certa”!

Detalhe importante: não se despreze aqui, como em outras miragens, a contribuição de ambos para a Projeção que se inicia, embora seu sujeito ativo seja mais protagonista deste enredo. A chance maior é de testemunhar indivíduos emaranhados em situações emocionalmente difíceis – o que projeta, e o que é alvo da projeção – fomentadas por enredos que confirmam a trama que precisa ser reencenada, a fim de produzir agora resultados diferentes e melhores do que aqueles experimentados no advento original do passado.

Ao encontrar a pessoa ideal para o papel de meu pai ou minha mãe – cônjuges e chefes costumam ser alvos prioritários – o “caça-talentos” é agora substituído por um “roteirista”, que começa a criar as paisagens e os diálogos que servirão para reencenar o episódio passado. Tudo será feito na mais profunda inconsciência para atestar que a escolha foi certeira: encontraremos formas para confirmar como aquela pessoa age mal conosco, do mesmo jeito como agiram mal no passado. Ou seja, o ator perfeito para o papel! Mas dessa vez, faremos de tudo para um final “feliz”: não mais seremos maltratados, não gritarão conosco, não nos abandonarão, não seremos ignorados, machucados, desprezados, humilhados. A dor do passado será substituída por gestos de um vencedor, agora crescido e forte, capaz de se provar e de corrigir uma injustiça.

Bem, o que esperar de tudo isso? A trama mostra-se, quase sempre, confusa e complexa demais para ser protagonizada. Não será fácil garantir a performance de todos, tal como traçada por um roteiro subliminar. Por melhor que eu faça a minha parte, a chance de nos frustrarmos com a atitude do outro é enorme. Você cria todo o contexto para a cena que deve se repetir, age dessa vez com maior desenvoltura do que no passado, mas o ator não tem a reação que você esperava. “Como assim? Fiz o que fiz e a pessoa não me ama ainda mais? Não me reconhece de modo ostensivo? Não joga a toalha e admite minha força, não percebe que eu agora sou o grande e ela é a pequena?”. Tudo isso para descobrir que faltou ensaiar este ator… Faltou combinar com ele que, no final, você venceria. Toda esta confusão, mantida sob a miragem da Projeção, trará apenas um resultado: mais dor, maior frustração e perda de tempo, além de estresse e fadiga.

Novamente, a esperança estará na consciência, capaz de transformar esta realidade, para uma soma saudável de pensamentos, sentimentos e comportamentos. A solução será trazer à superfície para desfazer uma trama que não pode e não precisa ser reencenada. Abandona-se este “esforço dramatúrgico” de duvidoso resultado, erguemos forças não para perdoar ou esquecer, mas para “deixar ir”, para seguir em frente.

Transposição

Esta miragem tem a mesma mecânica da Projeção, com a diferença de que nela o desejo é de reencenar situações positivas do passado. Preciso de um ator para agir comigo exatamente como meu pai ou minha mãe agiam.

Ao envolver chefes ou cônjuges nesta miragem, é eminente o poço de frustração que criamos e do qual nos aproximamos perigosamente. A expectativa lançada na direção do outro dificilmente será satisfeita. Todos aqueles momentos, em que confirmamos a semelhança positiva entre meus pais com a figura transposta para seus lugares, servirão para reforçar a ilusão de que estamos no caminho certo. Quando a decepção chegar, será esta sequência de contextos confirmatórios – de que o ator é a pessoa que procurávamos – que mais nos machucará, quando então nos daremos conta da “traição imposta por algo que, a rigor, não passava de miragem elaborada por nós mesmos.

Nossos anos de aconselhamento nos permitem afirmar que é muito difícil desvencilhar-se sozinho das miragens. É preciso buscar ajuda. Os enredos imaginários parecem muito reais, o que dificulta o salto para fora do subsolo. Aliados, mentores, confidentes, Coachs e terapeutas farão toda a diferença para aqueles sufocados por ilusão e autoengano, alimentados em meio às miragens. Ninguém fará esta travessia sozinho.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

(artigo adaptado do livro “O que mais você quer de mim?”, de minha co-autoria com Magda Oliver Ruas, a ser editado pela Editora Ornitorrinco em breve)

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.

Comments

comments