Quando não falamos o mesmo idioma

Imagine um casal, formado por um japonês e uma russa. Cada qual fala apenas sua própria língua, sem pronunciar uma palavra sequer no idioma do outro. O japonês chega em casa, narra toda sua rotina à esposa, conta piadas, faz elogios à beleza da amada e pergunta sobre como ela passou seu dia. A esposa russa ouve, não entende nada, mas dispara seu verbo a discorrer sobre si, a vida, a relação entre os dois, a saudade dos familiares, os desafios da vida doméstica, a camisola sensual que comprou para agradá-lo, etc, etc, em russo! Muito dito, nada compreendido. Muito dado ao outro, mas nada recebido em troca. Muito japonês, muito russo e nenhuma comunicação efetiva.

Por mais caricata, essa narrativa é ilustrativa do que ocorre com muitos casais (de diferentes idades e preferências sexuais). Os dois dão amor, sem que o outro receba, na medida em que cada qual o expressa por meio de uma linguagem incompreensível ao destinatário. Se falo japonês, entenderei o que falam comigo em japonês. O mesmo ocorre com alguém nativo em russo. Se expresso amor de um certo modo, entendo que recebo amor quando falam comigo no meu “idioma”. Mas há idiomas diferentes, inclusive para amar.

No caso acima, o melhor seria que o japonês – até como gesto de amor – fizesse todo esforço para falar russo, ou vice-versa. Sua esposa, em gratidão, aprenderia japonês. Não importa quão fluentes se tornem em linguagem estrangeira, tampouco a acuracidade da sua gramática: o que contará será o gesto do que se oferece ao outro. Sempre reagimos bem quando vemos alguém se esforçando para falar a nossa linguagem. Isso vale também para o amor.

São 5 as linguagens para expressar amor

É neste sentido que Gary Chapman, autor de As 5 Linguagens do Amor, desenvolve sua tese de como os relacionamentos ficam mais ou menos complicados. Segundo Chapman, todos expressamos amor por meio de 5 linguagens, da seguinte forma:

Presentear

Toque Físico

Tempo de Qualidade

Palavras de Afirmação

Atos de Serviço

Somos capazes de falar todas as 5 linguagens, mas temos sempre duas delas que são preponderantes. Vamos imaginar isso na prática.

Imagine um casal hetero ou homossexual, não importa. Um deles tem 2 linguagens em destaque: Tempo de Qualidade e Palavras de Afirmação, nesta ordem. Já seu par é diferente: a primeira é Toque Físico e a segunda é Presentear. Para o primeiro cônjuge, investir tempo junto, planejar atividades a dois, oferecer sua presença ao outro com qualidade serão formas inequívocas de demonstrar amor. Em segundo plano, também buscará reforçar de modo apreciativo talentos e características do seu par, evidenciará sua confiança e apoio na capacidade do seu amado em viver seus dons e desafios. Todavia, embora dê muito disso ao outro, seu cônjuge não recebe, porque reconhece amor essencialmente por Toque Físico: andar abraçado, de mãos dadas, sentar colado no sofá, beijar, acariciar. Também entenderá amor sempre que for surpreendido, presentado com objetos e bens materiais, mas igualmente com experiências e surpresas de toda sorte. São aspectos da linguagem do Presentear.

Veja que situação frustrante: o primeiro cônjuge dá muito ao outro, que não entende nada disso como amor. O mesmo ocorre com o segundo, que não recebe nada, mas dá bastante do seu próprio idioma, embora não compreendido por seu par. Muito japonês dito para alguém que só entende russo!

Imagine alguém que expressa amor por meio de Atos de Serviço: encontrará mil maneiras de servir ao outro, fazer algo por ele, prestar apoio prático em situações diversas. Agora pense: como esta pessoa sabe receber amor? Do mesmo jeito que dá! É assim para todas as linguagens: se sou Toque Físico, sei dar amor assim e reconheço que recebo quando falam na linguagem do Toque Físico comigo.

Note como essa premissa é perigosa e fadada a nos levar à frustração: falo japonês, então compreendo o que falam comigo sempre que empregam o japonês. Mas não é sempre assim, até porque a imensa maioria das pessoas está na escuridão delas mesmas, sem autossabedoria. Não sabem qual é a sua própria linguagem do amor, muito menos a dos outros, quer sejam cônjuges, filhos ou colegas de trabalho.

Pensamos no título do nosso próximo livro muito em função desta reflexão: pessoas dando bastante às outras, que não recebem, embora sintam que também dão muito, sem reciprocidade. Surge um sentimento de “tanque seco”, como diz Chapman. Momento em que um olha para o outro e pergunta: “o que mais você quer de mim??!!”. O sentimento é de esgotamento.

Sempre repetimos a nossos amigos e clientes a seguinte frase: quem tem mais consciência, tem mais responsabilidade. A capacidade para dar um passo além e melhorar a relação e a conversa dependerá daquele que estiver mais saudavelmente inquieto, incomodado e consciente da disfuncionalidade que vivem. O que fazer? Conversar bastante a este respeito?

Claro, conversar sempre pode ser um caminho. Mas em situações profundamente desarranjadas, em que o tanque de amor dos dois está abaixo do volume morto, qualquer conversa pode descambar para uma “DR” inútil e ainda mais desgastante. Melhor do que falar, será fazer. Mas o quê?

O indivíduo mais consciente naquele contexto deve dar um passo: deve deliberadamente aprender a falar a linguagem do seu par. Ainda que ele seja preponderantemente Toque Físico, por exemplo, falará sempre que possível Palavras de Afirmação, se for esta a linguagem do seu cônjuge. Ou seja, você fala na linguagem em que o outro entende que recebe amor, ainda que esta não seja a sua linguagem de uso comum. Convenhamos: não deixa de ser um belo gesto de amor e empatia empenhar-se para expressar amor por meio de um idioma inteligível para seu par, e que não é necessariamente o seu.

E qual será o efeito disso? Encher o tanque de amor do outro, até que se torne possível pedir amor também. Veja, é impossível que alguém dê o que não tem para dar. Encho o tanque do outro, para depois pedir que fale amor na minha linguagem – isso preencherá meu tanque, que também estava seco.

Falar na linguagem do outro pressupõe colocar intenção amorosa neste gesto. É óbvio que fazê-lo de mau humor, contrariado, forçado ou de modo artificial não trará bons resultados e – o que é bem provável – tornará tudo pior ainda. Todavia, conhecer e compreender a si mesmo, inclusive em como expressa e prefere receber amor, será importante vantagem para construir relações significativas, lembrando sempre que aquele com mais consciência tem mais responsabilidade para colocar a conversa e a relação alguns degraus acima.

LEMBRE-SE: CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A REALIDADE.

(artigo adaptado do livro “O que mais você quer de mim?”, de minha co-autoria com Magda Oliver Ruas, a ser editado pela Editora Ornitorrinco em breve)

ROGÉRIO CHÉR, é sócio da Empreender Vida e Carreira, autor do best-seller Empreendedorismo na Veia – um aprendizado constante e do livro Engajamento – melhores práticas de Liderança, Cultura Organizacional e Felicidade no Trabalho.