Por que escrevemos este livro?

Quer saber se alguém é feliz de verdade? Então observe como estão seus relacionamentos.

Nosso nível de felicidade depende enormemente da qualidade das nossas relações. O contrário é verdadeiro: términos de vínculos repletos de dor e amargura, conversas com “fio desencapado”, conflitos intermináveis, ausência e distanciamento de pessoas amadas, indiferença por parte daqueles que consideramos importantes para nós… enfim, uma galeria vasta – e dolorosa – de contextos que corroem a sensação de plenitude e realização.

É natural que o foco imediato do tema das relações seja o outro, sejam as outras pessoas. Há, entretanto, algo óbvio que não pode ser ignorado: a primeira dimensão do Ser é a relação consigo mesmo, como pré-condição para estabelecer laços significativos com os outros e com o mundo ao redor. É sobre isto que tratamos neste livro.

Há um pensamento de Rudolf Steiner que diz muito a respeito: só se pode unir o que estiver separado. O que significa? Vejamos.

Um risco medonho é procurarmos no outro e no mundo aquilo que nos falta. “Quero você em minha vida para me completar”, “quero este emprego para me preencher”, “preciso daqueles amigos porque sem eles me sinto insuficiente”, “sem você em minha existência fica faltando um pedaço”. Podemos até concordar que são intenções belas e poéticas, mas o fim da cada um destes “poemas” passará por frustração, decepção, desapontamento e tristeza, inevitavelmente. Ninguém será feliz e realizado se oferecer ao outro e ao mundo apenas uma pequena e insuficiente fração de si mesmo, esperando que alguém ou alguma coisa seja capaz de satisfazer o que lhe falta.

Arrastamos diariamente um diálogo negativo dentro de nós, seguido da sensação de incompletude, de falta, de escassez. Sentimentos danosos que produzem o resultado oposto ao que buscamos: mais infelicidade. A premissa equivocada é dar aos outros e ao mundo a tarefa de nos completar. Para que existe meu cônjuge? Para me saciar e atender minhas necessidades de afeto. Para que existem meus Pais? Para reconhecer que seu filho venceu, finalmente! Para que existem meus filhos? Para me render reverência de um exemplo a ser seguido. Para que existe meu trabalho? Para reforçar a tese de que sou talentoso e especial. E quem foi que combinou isso com eles, exatamente assim?

O mergulho em tanta miragem leva-nos a um grau elevado de insuficiência e nos põe sempre querendo e precisando mais, esperando muito dos outros, o que os obrigará a protestar, em meio a uma sensação de impotência, com a pergunta: “o que mais você quer de mim?!”. Perdidos em um Eu enfraquecido e ausente, daremos uma resposta, qualquer resposta capaz apenas de jogar água para dentro do barco, para nos afogarmos em mais mágoa, ressentimento e, paradoxalmente, em um tanque de amor cada vez mais seco e vazio.

Transferir ao outro e ao mundo a tarefa de nos nutrir é semelhante à pessoa que transfere uma dívida que não existe a um devedor que não deve nada. A descoberta desta ilusão não trará alívio e aumentará a dor se não pularmos para um degrau acima, a fim de pensarmos e sentirmos a vida com maturidade.

O caminho da autoconsciência passa inicialmente por “separar o indivíduo”, ou seja, completar sua individuação, o contato em alto nível com seu Eu Inferior, com seu Eu Idealizado, com seu Eu Superior e com sua essência mais verdadeira, o Self. Neste caminho, o Ego assume um papel heroico: como um cavaleiro com a espada em mãos (símbolo arquetípico da ampliação de consciência) abre caminhos para enxergarmos um mundo de dualidades, onde existe um Eu separado do resto, em que enxergamos a divisão entre pares de opostos: luz e sombra, noite e dia, masculino e feminino, individual e coletivo, vida pessoal e vida profissional, eu e você, etc.

A percepção clara e não mais embaçada do Eu, dos outros, do mundo e das polaridades ao redor servirá então a um objetivo maior: transcender estas dualidades para nos unir ao Todo. Neste lugar interno e profundo da nossa individualidade, onde achávamos que nos encontraríamos sozinhos, encontraremos o universo inteiro.

A consciência ampliada para um Eu forte e separado do outro e do Todo se apresenta pronto para outra jornada: aquela em que transcende o plano fragmentado do Ser para uma dimensão integrada aos outros e à vida. Agora sim pode-se unir o que estava separado. Uma união livre de miragens, que não mais “precisa ser”, pois ela simplesmente “é”. Ou, como diz Einstein na frase que abre este livro, um movimento para nos “libertar dessa prisão alargando nossos círculos de compaixão de modo a abranger todas as criaturas vivas e a totalidade da natureza em sua beleza”.

Foi com a inspiração destas ideias que escrevemos este livro, compondo-o em três partes: Eu Comigo, Eu com o Outro e Eu com o Mundo. Na Parte I, nosso objetivo é apoiar o leitor a reforçar a conexão consigo mesmo, com sua história e com sua verdade. Na Parte II, tratamos do desafio das relações com as pessoas ao redor, em seus diferentes papéis. Na Parte III, finalizamos com a reflexão sobre o necessário protagonismo a ser assumido pelo indivíduo em seu mundo, que culmina na declaração de seu Propósito. Desse modo, percorremos o caminho do Eu, do Nós e do Todo.

Ao longo de 18 capítulos, fazemos alusão tanto à vida quanto à carreira, à dimensão pessoal combinada com a profissional, bem como aos relacionamentos vivenciados em suas diferentes perspectivas. Com isso, nossa ambição é percorrer de modo integral este milagre que nos apaixona todos os dias: a relação com a vida.

Por fim, é preciso dizer que escrevemos este livro para fazer duas reverências importantes. Em primeiro lugar, ao Hemera Experience, a experiência de autossabedoria que eu e Magda conduzimos e da qual tiramos a ideia deste livro, que serve como gratidão às centenas de amigos que participam desta história conosco. Em segundo lugar, esta obra expressa gratidão ao Amor que nasceu entre nós (Rogério e Magda), ao desafio diário que compartilhamos de viver coerentemente nossos valores e propósitos, bem como ao Amor maiúsculo e infinito que temos aos que nos arrebatam intensamente o coração: Jéssica, Bruno, Lucas e Lívia, nesta ordem de chegada ao planeta, a quem amaremos eternamente.

Rogério e Magda

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